Bemdito

Meu caminho particular entre a dúvida e a fé

Reflexões sobre um trajeto íntimo entre o ceticismo e a crença em tempos de pandemia e isolamento
POR Jáder Santana
O pastor T. L. Barrett em momento de pregação e canto (Foto: Divulgação)

Vez por outra experimento alguma situação que abala meu conforto agnóstico: ora em direção ao ateísmo absoluto, ora em direção à necessidade de acreditar em uma força maior que ordena e desordena todas as coisas. Costumo acolher esse movimento pendular de forma respeitosa, me permito a reflexão silenciosa dessa nova e temporária convicção. Aconteceu duas vezes no último mês — em ambas as ocasiões, me descolei de meu agnosticismo pela disposição emocional de que haveria uma entidade etérea que tudo vê e tudo sabe. 

Na verdade, se penso nos últimos meses, no último ano e meio, percebo que a maioria desses movimentos pendulares ocorreu na direção dessa crença. Talvez pelo desejo de que, efetivamente, exista alguém olhando por nós em um mundo que se revelou absolutamente árido. Pelo desejo de que exista uma realidade suprasenssível capaz de explicar a dor, o desespero e a morte que se tornaram regra. Pelo reconhecimento de minha incapacidade de passar incólume por tudo isso. Nunca, como nos últimos meses, desejei tanto que houvesse um deus, uma criatura onisciente capaz de oferecer algum conforto e esperança. 

Antes dos dois episódios recentes, a força estoica de padre Lino Allegri, sobre quem escrevi há alguns meses neste artigo, já havia me levado alguns passos adiante nesse interesse que súbito vem e vai. Quis estar na Paróquia da Paz em seu retorno às missas não apenas para demonstrar meu apoio e testemunhar seu princípio moral inabalável, mas porque desejava sorver de sua coragem, porque imaginava que estar no mesmo recinto que ele, ouvindo sua pregação, me faria fortalecer minha própria resistência. Queria acreditar no mesmo deus que baliza seus passos e sustenta sua força. 

Nasci em uma família católica de cidade de interior, fui batizado e frequentei as missas dominicais até pouco depois da primeira comunhão. Estudei em colégio de freiras até me mudar para a capital, já me preparando para o vestibular. No meio desse caminho, órfão de pai, frequentei por alguns meses as reuniões de um grupo de Testemunhas de Jeová. Recebia semanalmente, em minha casa, pregadores para estudo bíblico. Meu interesse era genuíno, as celebrações me confortavam, as discussões me divertiam. Havia um senso de pertencimento, o sentimento de comunidade. O interesse em comum que nos reunia sobrepujava nossas diferenças. 

Foi a grande Fortaleza, com seu espaço infinito para a experimentação e a invenção de novas regras, que fez minguar esse interesse e me tornou cético em relação a tudo que não estava nas páginas dos livros, a tudo que não era fruto de análise e método. A cisão com a igreja foi absoluta, nascendo em seu lugar um entusiasmo ilimitado pela literatura, a filosofia, o cinema e a música — meus lugares de conforto e dedicação. Deus perdeu espaço para Camus. Nas prateleiras, as revistas de estudo bíblico foram substituídas por revistas especializadas. A chegada das redes sociais me fez, cada vez mais, limitar minha bolha de contatos entre aqueles com quem compartilhava muitos interesses e referências.  

Uma década e meia depois, voltei a abrir espaço em minhas estantes para a Bíblia grega de Frederico Lourenço, para Boff, Betto, Agostinho e Aquino. Não que a arte tenha deixado de ser meu lar. Longe disso. Mas ela teve que ceder um pouco de seu espaço para as novas aquisições de alguém que desejava acreditar em algo mais. Alguém que, com uma nova curiosidade infindável, se embrenhava na busca da compreensão de uma cultura religiosa historicamente maciça, inabalável. Ao lado da personalização da arte, a liturgia improgressiva da fé. 

Ainda não voltei às missas, embora nos últimos dias tenha investido bons minutos na busca de alguma igreja cuja condução esteja atenta às necessidades de nosso tempo, sem abrir mão dos ritos sobre os quais se alicerçou sua história. Tradição e progresso. O melhor dos dois mundos. Se alguém souber de algo assim, agradeço a indicação. 

No início deste texto, escrevi que dois episódios recentes reacenderam minha disposição no sentido de me reaproximar desse quinhão de interesse que decidi ignorar por muito tempo. O primeiro foi uma série da Netflix (sim, há coisas boas por lá) chamada Midnight mass, único trabalho do diretor Mike Flanagan que me parece de fato valioso. Não se deixe levar pela sinopse, que destaca apenas o aspecto de terror sobrenatural da narrativa, ou pelos trabalhos anteriores do diretor (que me parecem realmente problemáticos). Sim, é uma série de horror com elementos sobrenaturais e grandes doses de um fanatismo religioso assumidamente criminoso. Mas, apesar disso, há em Midnight mass a celebração de um modo de vida simples, desconectado, fraterno e cristão que me fisgou desde o primeiro episódio.
 
O segundo motivo de meu renovado interesse foi o lançamento do box I shall wear a crown, uma valiosíssima reunião de duas décadas de gravações do pastor T. L. Barrett e seu Youth for Christ Choir. São 40 faixas divididas em cinco discos e mais de duas horas e meia de uma música impressionante que mistura gospel, funk e soul, um resgate do legado do pastor Barrett, ativista dos direitos civis e músico de primeira qualidade. Apesar de ter visto seu nome ser implicado em um suposto esquema de pirâmide no fim dos anos 80, Barrett soube superar a polêmica e hoje é tratado como lenda no meio musical e religioso dos EUA. Sua música tem sido minha trilha sonora dos últimos dias e sua apresentação recente no Tiny Desk Concert arrepia e emociona.

Jáder Santana

Editor executivo do Bemdito, é jornalista e trabalhou como repórter e editor de cultura do jornal O Povo, onde também integrou o Núcleo de Reportagens Especiais. É curador da Festa Literária do Ceará e mestrando em Estudos da Tradução pela UFC.