Bemdito

Saudades de quem nunca vi

Gente, assim como a felicidade de Guimarães Rosa, se acha mesmo é em horinhas de descuido
POR Iana Soares

Gente, assim como a felicidade de Guimarães Rosa, se acha mesmo é em horinhas de descuido

Iana Soares
ianascm@gmail.com

Estou com saudades de quem ainda não conheço. Talvez eu já soubesse disso, mas hoje, quando desci para comprar 16 rolos de papel higiênico, tive a certeza. Passei por um rapaz vestido com uma blusa do Flamengo que empurrava um carrinho desses de vender tapioca e outros lanches. Eu, de máscara, ele, também. Uma calçada estreita. Ele me olhou, eu também olhei, e me disse: bom dia. Respondi: bom dia. Seguimos. 

Na fila do supermercado, descobri que o damasco estava em promoção. Um senhor conseguiu comprar duas caixinhas com menos de R$ 10. Perguntei se era isso mesmo e ele me confirmou. Quando fui à seção, só encontrei os caros. O mesmo senhor, que descubro que é funcionário do local, me diz que vai ver se ainda tem lá dentro. Volta com quatro pacotes, os últimos. Dois meus e os outros dois para a funcionária do caixa. Ela me pergunta: isso tem gosto de quê? Tento explicar que fica entre o doce e o amargo, que tem uma textura singular e o preço está excelente. Me diz que vai dar para a filha. Quantos anos? Um. Digo que ela ainda está descobrindo o gosto do mundo, então tem muita chance de dar certo. 

Com frequência, exaltamos a intimidade e a profundidade das amizades longas, dos vínculos parentais, daqueles que escolhemos ter ao lado para sempre, essa utopia. Hoje, eu queria celebrar aqueles que vi uma vez e nunca mais. Luiz Reina, Marlen, Mohammed, Nicolas e Sara, que conheci nas ruas do Raval, em Barcelona, onde coincidimos durante um movimento de rotação da Terra. Comemoro os encontros que guardei no @gentedefortaleza, nas horinhas de descuido desta cidade que quase encosta no Equador. 

Não sei se aprendi ou se aconteceu. Pode ser genético isso de gostar de falar com estranhos. Minha mãe sempre teve o hábito e a habilidade de puxar conversa em supermercados, consultórios, lojas, escolas. Em qualquer fila, canto e horário. Deve ter sido assim: observando minha mãe, eu entendi a beleza que há na conexão efêmera entre dois desconhecidos que, por alguns segundos, minutos ou horas, até, compartilham um fragmento do mundo. É uma herança, percebo. 

Na volta, sentado na calçada do prédio onde moro, vejo outro rapaz, sem saber ainda que é o mesmo de alguns quarteirões. Dou bom dia e ele responde. Bom dia. Vejo a camisa do flamengo, não sei onde guardou o carrinho. Acho graça da coincidência que não serve para nada, só para o sorriso que me acompanha enquanto subo as escadas com os damascos que trouxe para o meu amor, que conheço há 18 anos e namoro há dois. Ele me escuta contar toda essa história antes de eu vê-la, assim, escrita. Qualquer tempo um dia já foi apenas um instante. 

Iana Soares é jornalista e fotógrafa. Está no Instagram.

Iana Soares

Jornalista, fotógrafa e professora, tem mestrado em Criação Artística Contemporânea pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Barcelona e atualmente coordena o Programa de Fotopoéticas da Escola Porto Iracema das Artes.