Bemdito

Embates entre Ciro e Moro: o acirramento da disputa na terceira via

Apesar do estreito espaço para a terceira via, Ciro Gomes e Sergio Moro se movimentam demonstrando expectativas para o futuro da disputa
POR Monalisa Soares
José Cruz / Agência Brasil

Enfim, chegamos a 2022. Ainda que o clima de campanha permanente tenha sido a tônica dos últimos três anos, no Brasil, o novo ano foi recebido como decisivo. Entre esperanças e expectativas, espera-se o desenrolar do capítulo final desse enredo político.

As pesquisas divulgadas neste mês indicam que o campo da chamada terceira via tem se tornado cada vez mais estreito. A consolidação da liderança de Lula, num patamar acima dos 40% de intenções de votos, o estacionamento da adesão a Bolsonaro em torno dos 25%, além da pulverização de candidaturas no campo da terceira via, poderiam significar o fracasso de um outro nome representativo para a disputa presidencial.

Apesar desta conjuntura, as duas pré-candidaturas do campo que aparecem melhor posicionadas nas pesquisas – Ciro Gomes e Sergio Moro – têm se movimentado bastante neste início de ano, demonstrando expectativas para o futuro da disputa.

Sergio Moro tem intensificado a presença na mídia com uma série de entrevistas em jornais e revistas, as mais recentes para o Estadão e a Veja. Nas entrevistas, reforçou o discurso de ruptura da polarização, colocou Lula e Bolsonaro como duas faces da mesma moeda da corrupção no Brasil. No entanto, admite que sua batalha imediata, no primeiro turno, é contra Bolsonaro, ou seja, mira justamente no eleitorado do candidato que precisaria avançar para crescer nas pesquisas e vislumbrar uma disputa de segundo turno. 

O ex-ministro da Justiça também participou do Podcast Flow. No programa, que até o momento em que este artigo é escrito conta com 1,7 milhão de visualizações, Moro buscou construir uma imagem mais descontraída. Tentando interagir com o público mais jovem, falou de seus gostos por games e gibis da Marvel. Numa perspectiva política, reforçou posições que se alinham aos anseios de um eleitorado mais conservador que ainda pode estar vinculado ao presidente. Buscou apresentar-se como uma alternativa viável diante do presidente Bolsonaro e sua queda nas pesquisas de intenção de voto. 

A presença no Flow, no entanto, não repercutiu apenas positivamente. O fato de o patrocinador do podcast ser um site de acompanhantes foi bastante noticiado, inclusive, porque a empresa marcou Sergio Moro em suas postagens nas redes sociais. Outro dado que também circulou bastante foi a comparação entre a audiência da entrevista do ex-ministro ao Flow e a de Lula concedida ao Podpah. Analisando os dados de quem assistiu simultaneamente, o ex-presidente alcançou 292 mil pessoas, enquanto Moro atingiu 82 mil.

A consequência menos prevista da participação de Moro no Flow, no entanto, foi o ensejo para a produção de um “react” pela campanha de Ciro Gomes. O react é um formato de vídeo no qual alguém é filmado reagindo a algum evento/episódio. Neste caso, a gravação do react ocorreu durante a live semanal “Ciro Games”, ambientada num estúdio em que o pré-candidato está sentado numa cadeira de gamer e ao fundo há um quadro escrito “Cirão das Massas”. 

O vídeo com 25 minutos de duração, postado no Youtube, traz em sua legenda, escrita em primeira pessoa, que a gravação foi realizada a pedido da audiência e que a intenção do pré-candidato com o formato é “debater e questionar o que certos personagens andam falando por aí”. Ao longo do vídeo, são apresentados trechos da entrevista de Sergio Moro ao Flow. Na tela, num enquadramento lado a lado, temos a reação de Ciro ao ouvir as respostas do ex-ministro da Justiça às perguntas. 

Na sequência, num enquadramento apenas com Ciro Gomes na tela, o pré-candidato comenta e vai “desmontando” os argumentos apresentados por Moro. Em termos de conteúdo, são analisadas as respostas sobre o auxílio moradia que o ex-juiz recebeu mesmo tendo apartamento próprio em Curitiba, suas propostas para a economia, atuação na Lava Jato e definição da pena de Lula, além da discussão sobre privatização da Petrobrás. 

O vídeo na íntegra do react conta com mais 135 mil visualizações até o momento em que este texto é escrito. Foram postados também trechos do react nas redes sociais. Há vídeos desses trechos que contam com mais de 1 milhão de visualizações.

Para além dos números, cabe ainda destacar o momento oportuno em que tal estratégia comunicacional é acionada pela campanha de Ciro Gomes. Desde dezembro, quando viu Moro emergir como competidor direto no campo da terceira via, Gomes desafiou o ex-ministro da Justiça para um debate. O que foi prontamente recusado por Moro, que acusou Ciro de ter uma postura muito ofensiva. 

Na impossibilidade de um tête-à-tête, a campanha conseguiu um modo de garantir que Moro não fugisse completamente ao debate. Num formato que nos mostra mais uma camada entre muitas de como mobilizar o ambiente das redes nas campanhas eleitorais, Ciro Gomes aproveitou para desconstruir o adversário e suas ideias, buscando também imputar-lhe a pecha de despreparo.

Monalisa Soares

Doutora em Sociologia e professora da UFC, integra o Laboratório de Estudos sobre Política, Eleições e Mídia e se dedica a pesquisas na interface da comunicação política, com foco em campanhas eleitorais, gênero e análise conjuntura.