Bemdito

O cavalo gigante que mora no quarto

Como aprender a contar o tempo com olhos de imaginação?
POR Iana Soares

Como aprender a contar o tempo com olhos de imaginação? 

Iana Soares
ianascm@gmail.com 

A água do tanque da casa no Antônio Bezerra era escura: as margens nunca foram azulejadas. Era possível sentir a textura do musgo com a ponta dos pés, quando eu tinha pés. Na maior parte do tempo, era uma sereia de cauda longa, com toda a trilha sonora decorada e os movimentos muito ligeiros para emergir e alcançar o efeito do cabelo molhado, que fazia uma curva no pescoço. Não era branca nem ruiva, mas conseguia ser a criatura fantástica de um oceano que media dois passos de largura por um corpo de sete anos de profundidade. 

De lá pra cá, encontrei muitas águas misteriosas. Uma vez, achei um buraco inundado no alto de uma imensa rocha ígnea. Aprendi essas categorias, assim como metamórficas e sedimentares, ouvindo as histórias de um narrador que sabe medir o tempo em bilhões de anos.  Ainda criança, quando algum desavisado apontava uma pedra gigante, eu corrigia e dizia que era uma rocha. Um monólito. 

Aprendi também que se chamavam inselbergs e que não tinham a mesma fama dos icebergs, mas pelo menos não derretiam. Aliás: passam por um derretimento tão lento, a erosão, que são capazes de somar uma vida em bilhões de anos. E o mais surpreendente de tudo: águas salgadas já tinham inundado toda aquela paisagem. Foi por isso que, quando vi a poça, pensei no oceano que descansou ali em cima há 90 milhões de anos. Era um restinho de chuva, eu sabia, mas havia beleza em adivinhar o mar. 

Nesse dia, depois de alcançar o céu, tomei um café e comi rapadura no avarandado de um casal com filhos já criados. Por ali, as netas cresciam entre galinhas, acerolas, rapaduras, vacas e imaginações. Eu estava distraída quando uma menina me disse baixinho: “Vem ver o cavalo gigante que mora no meu quarto”. Ninguém ao redor ouviu e saímos silenciosas para ir ao encontro daquele segredo. Eu vi. Um cavalo enorme e a menina não tinha medo. 

Soube que o tanque está cheio de folhas. As paredes racharam e já não conseguem conter a água. Vi, tantos anos depois, a secura que tomou conta do quintal onde hoje mora o narrador. Penso se, agora, já sabe medir também a miudeza dos dias. Não viveremos a existência de um monólito. Queria contar para ele que enxergar o fragmento de tempo que habito com olhos de sereia é o que, às vezes, me salva por um segundo. A chance de subir no cavalo e cavalgar sob a chuva que verdeja o sertão, também. 

Iana Soares é jornalista e fotógrafa. Está no Instagram.

Iana Soares

Jornalista, fotógrafa e professora, tem mestrado em Criação Artística Contemporânea pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Barcelona e atualmente coordena o Programa de Fotopoéticas da Escola Porto Iracema das Artes.