Bemdito

Realismo Político e o Tabuleiro de 2022

A capacidade de agendar e esquadrinhar os termos do debate político pode definir os rumos das próximas eleições
POR Monalisa Soares
Foto: Alan Santos/PR

Pesquisas divulgadas na última semana apontaram uma leve recuperação do presidente Bolsonaro diante da opinião pública. O levantamento realizado pela Exame/Ideia indicou que a avaliação positiva do mandatário se manteve estável, especialmente pelo fidelizado apoio de homens e evangélicos. Já a pesquisa conduzida pelo PoderData apresentou uma recuperação de Bolsonaro, diminuindo a vantagem de Lula, seu principal adversário, em cenário de 2º turno.

Outro monitoramento de destaque refere-se ao Índice de Popularidade Digital (IPD), realizado pela consultoria Quaest. Bolsonaro, que sempre foi relevante neste âmbito, vinha perdendo espaço desde janeiro deste ano, mas retomou novamente a dianteira do ranking. No último levantamento, de 8 de junho, marcou 73,17 pontos contra 46,92 do ex-presidente Lula, que ficou em segundo lugar.

Os dados revelam o resultado da estratégia de ação conduzida pelo presidente e seu grupo político ao longo das últimas semanas com vistas a reduzir os danos causados pelos desdobramentos da pandemia neste início de ano. Destaca-se, nesse sentido, uma intensa agenda pública de atos presenciais e declarações que visam mobilizar o engajamento e a popularidade. Some-se ainda o pequeno crescimento econômico e a perspectiva de avanço na imunização da população.

Considerando as movimentações das oposições no último mês, com destaque para as manifestações de rua em 29 de maio e a atuação de senadores(as) oposicionistas e independentes na CPI da Pandemia, devemos analisar as ações de Bolsonaro ponderando o tabuleiro político da sucessão de 2022.

Analistas políticos divididos
Entre analistas políticos(as), tem sido travado intenso debate sobre a força efetiva de Bolsonaro e suas chances para a disputa eleitoral do próximo ano. De um lado, teses que tornam superlativas as chances de reeleição do presidente e a capacidade de ampliar seu domínio político. As evidências para tanto seriam a base ideológica, a capacidade de comunicação nas redes sociais e o apoio militar, entre as Forças Armadas e polícias estaduais. 

Em polo oposto, encontramos interpretações que apontam um governo combalido, promovendo ações que teriam como objetivo reduzir danos visando à reeleição, cuja derrota já estaria praticamente anunciada. A rejeição ao governo e ao presidente, que chegou a 60%, e as ações inconsequentes na gestão da pandemia são os elementos centrais que fundamentam essa perspectiva.

A análise política não é tarefa fácil, já que as recorrentes batalhas interpretativas aprofundam visões dicotômicas, sem permitir zonas de contato e perspectivas integrativas, que contribuiriam para um melhor exercício de realismo político. No Brasil do último decênio, especialmente a eleição e a gestão de Bolsonaro adensaram complexidades à análise política e, mais ainda, ao esforço integrativo. 

Particularmente, não me atrai nem a análise que superestima o poder do presidente e seu grupo – na qual vejo um fatalismo típico que se cultiva desde sua vitória em 2018 -, e tampouco me alinho à perspectiva que o subestima, a qual considera que o desgaste do governo por si levará necessariamente à sua derrocada, cabendo aos seus adversários apenas seguir as ondas políticas rumo à vitória.

Discurso: forte arma política em jogo
Pela dinâmica estabelecida, desde sua vitória até aqui, avalio que Bolsonaro é um ator político que usa com eficiência as armas que lhe cabem para manter-se competitivo na disputa política, a despeito de todos os desafios que se interpõem em seu caminho. 

Como tenho mencionado nesta coluna, o presidente possui alguns recursos importantes na sua caminhada até 2022, o que não pode ser desconsiderado de modo algum. Isso, por sua vez, não sugere que o presidente que se acha “imorrível, imbrochável e incomível” seja invencível. Ao contrário, as oposições têm muitos elementos a explorar na construção do(s) projeto(s) para enfrentar o presidente ano que vem: a má gestão da pandemia; o desemprego, a inflação, etc.

Destaco um aspecto relevante para esta batalha: a comunicação. Refiro-me à capacidade de agendar e esquadrinhar os termos do debate político. Bolsonaro tem sido efetivo em delimitar os termos da discussão política e sua repercussão, além de projetar, especialmente para os fidelizados, sua versão sobre a situação política do País. 

As oposições também têm conseguido, em alguns eventos, realizar tal empreitada, furando a bolha, o que é muito relevante. A CPI da Pandemia tem sido um exemplo. Tal ação é, portanto, tão importante quanto a construção de alianças e de programas comuns, por isso, necessita ser potencializada. Afinal, a história que será consagrada vitoriosa na disputa eleitoral deve ser semeada ao longo do jogo político regular, de modo a estar sedimentada à época do pleito de 2022.

Monalisa Soares

Doutora em Sociologia e professora da UFC, integra o Laboratório de Estudos sobre Política, Eleições e Mídia e se dedica a pesquisas na interface da comunicação política, com foco em campanhas eleitorais, gênero e análise conjuntura.