Bemdito

Para não dar gosto ao cão

No país onde impera a política de morte, a celebração de quem no ano passado morreu, mas, com a vacina, este ano não morre
POR Izabel Accioly
Foto: Divulgação/TV Cultura

No país onde impera a política de morte, a celebração de quem no ano passado morreu, mas, com a vacina, este ano não morre

Izabel Accioly
mariaizabelaccioly@gmail.com

O relógio marcava 18 horas quando recebi a mensagem da Geórgia. “Acho que vi o seu nome na lista de vacinação”, ela me disse. Uma emoção tomou conta do meu corpo como há muito não me acontecia. Sim, estava lá. Nome e sobrenome na lista de pessoas a serem vacinadas no dia seguinte, domingo. O que se passou na minha cabeça até o horário da bendita vacina foi uma enxurrada de pensamentos bons e ruins.

Rememorei os quase 14 meses isolada. Meu filho e eu em casa, guardados na intenção de escapar desse mal. Quando as primeiras notícias da Covid-19 se espalharam pelo Brasil, a ideia inicial era a de que havia grupos de risco, pessoas que estariam mais predispostas a complicações. Recordo-me de falas extremamente problemáticas, que insinuavam que os idosos eram vidas menos produtivas e, portanto, menos valiosas.

A esse grupo foram somadas também as pessoas com comorbidades. E lá estava eu, diabética. Ao longo da pandemia, vi pessoas negacionistas alegando que as mortes eram apenas por conta dessas doenças prévias. Essa manobra argumentativa para justificar a morte de pessoas com comorbidades me fere profundamente.

Nos momentos antes de me vacinar, pensei no quanto os pesquisadores trabalharam para que essas vacinas existissem. Lembrei-me dos profissionais de saúde que se dedicaram ao ofício de cuidar e curar. E pensei em todas as pessoas que perderam as suas vidas antes de ter a oportunidade de imunização. Ser do grupo de risco me assombrou nos últimos tempos. Era como se a morte estivesse sempre à espreita, mas agora eu estava ali, prestes a receber a vacina.

A ansiedade da noite anterior se dissipou com a agulha e a mão fria da profissional que me vacinou. A primeira dose da vacina não me garante a imunidade completa, mas me deu uma esperança que há tempos eu não sentia.

Vivemos em um país onde impera uma política de morte. Existem fortes indícios de que o presidente do Brasil negou-se, o quanto pôde, a comprar os imunizantes. Por causa disso, as vacinas demoraram a chegar e agora nos vêm a conta-gotas. Apesar disso, elas existem. E, só por hoje, peço licença pra escolher a esperança. Como dizia minha avó, dona Maria de Jesus, não vou dar gosto ao cão.

No caminho de volta para casa, Vinícius e eu ouvimos Belchior e cantamos como há tempos não fazíamos. Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro. Ano passado eu morri, mas este ano eu não morro.

Izabel Accioly é antropóloga, professora e pesquisadora das temáticas de relações raciais e branquitude. Está no Twitter e no Instagram.

Izabel Accioly

Mestra em Antropologia Social pela UFScar, é pesquisadora do Grupo de Estudo e Pesquisa sobre Relações de Poder, Conflitos e Socialidades da USP/UFScar.