Bemdito

O super-hétero e a suruba dos crepidópodes

A natureza ajuda a demonstrar que a sexualidade humana é um terreno mais pantanoso do que se imagina
POR Paula Brandão

A natureza ajuda a demonstrar que a sexualidade humana é um terreno mais pantanoso do que se imagina

Paula Brandão
paulafbam@gmail.com

Você já ouviu falar em super-hétero? Caso não conheça, preste atenção ao que os adolescentes estão falando, observe as redes sociais, em especial o Tik Tok e o Facebook, e procure por símbolos nos tons laranja e preto. Traçando um paralelo com o meu artigo sobre HSH, homens que fazem sexo com outros homens mas se afirmam heterossexuais, descobri essa semana que os jovens estão recebendo vídeos de homens másculos, reivindicando um lugar para si como um novo gênero: os super-héteros.

São homens que só se relacionam com pessoas que nasceram com o sexo oposto, jamais com mulheres trans. Buscam legitimar o discurso de que, ao se identificarem como um gênero, feministas e LGBTQIA+ precisarão respeitá-los e não acusá-los de homo/transfóbicos.

Leo Lage, Youtuber com 226 mil seguidores, ao definir o que é o tal fenômeno, ilustra com a seguinte cena. O bonitão chega numa festa e vê uma mulher de longe, mordendo o lábio, desejando-o. Ele resolve se aproximar e acha algo estranho. A voz grossa ou os “trejeitos”, como afirma, chamam a atenção. Até que pergunta se ela é mulher, e a moça responde: “Então, nasci em um corpo de homem, nunca me identifiquei como homem, quando eu tive dinheiro e idade certa, eu fiz a cirurgia e me intitulei mulher, afinal agora tenho pepeito, agora tenho bubunda, e pepeca. Como eu não pego outras mulheres, eu sou hétero.” Ao ser, nesse momento, rejeitada pelo boy, ela o chama de transfóbico.

Leo diz que é pra evitar esse tipo de mal entendido que surge o super-hétero. Em suas palavras, nos anos 1990, surgiu a sigla GLS, que depois passou para LGBT, e agora temos os QPPPP+. E indaga: Como ficam especificando tudo, porque não criar o gênero super-hétero?

Eu poderia dizer a esses jovens que estão reivindicando em suas redes a identidade SH, que a heterossexualidade no sentido que a compreendemos hoje é uma criação moderna. Li recentemente, em A invenção da heterossexualidade, de Jonathan Ned Katz, que a psiquiatria já definiu a homossexualidade como norma. Os depravados eram sabe quem? Os heterossexuais! O autor mostra que esse conceito é uma ficção, mas que tem um poder avassalador sobre as nossas vidas sociais e pessoais. Eu poderia dizer ainda que essas mitologias fundantes são produzidas como contrato social heterocentrado, que eles não caiam nessa. Mas quem sou eu para falar aos homens superlativos?

Como uma pessoa com pepeitos e pepeca, prefiro me concentrar em um bichinho bem aproveitador de suas orgias eróticas, sem preconceitos, apresentado por Stephen Jay Gould, em O sorriso do Flamingo: reflexões sobre a história natural. É o crepidula fornicata, um animal que muda de sexo naturalmente. Os jovens ainda pequenos se desenvolvem machos, e depois, quando crescem e atingem a maturidade, viram fêmeas. Os crepidópodes ficam amontoados, uns em cima dos outros, em até uma dúzia de conchas. Os machos ficam em cima porque são pequenos, e, como as fêmeas são grandes por armazenar material genético para reprodução, ficam embaixo, sustentando todo o grupo. O fato do macho estar em cima dos intermediários e não chegar à fêmea que é a última na escadinha pode levar à ideia da homossexualidade. Contudo, “o pênis do macho é bem maior que o seu corpo inteiro e pode se esgueirar facilmente por entre alguns machos para alcançar as fêmeas.”

Ao pensar em nós, mamíferos, que vivemos em sociedade, constatamos que a maoria dos homens é maior e mais forte, enquanto as mulheres com suas dietas cada vez mais restritivas, menores. Contrariamos todo o restante da natureza, no qual os machos são geralmente menores, como os nossos agora conhecidos crepidula fornicata. A exceção são algumas espécies em que há competição entre os indivíduos ou exibição sexual para conquistar a fêmea, quando os machos se desenvolvem mais e ficam maiores que elas. Em busca de tirar vantagem sobre as fêmeas, eles viram supermachos, digo, super-héteros.

Será que na natureza teríamos os crepidópodes como seres ideais? Aqueles que vivenciam uma experiência de ser macho, e quando conquistam tamanho e maturidade, viram fêmeas? Não entendo muito de biologia, mas concordo com o autor, quando ele diz que o darwinismo nos ajuda a entender porque “se o homem é a medida de todas as coisas, a Mariazinha precisa de um púlpito mais espaçoso.”

Paula Brandão é professora da UECE, doutora em sociologia e pesquisadora na área de gênero, gerações e sexualidades. Está no Instagram.

Paula Brandão

Doutora em Sociologia pela UFC, e professora do curso de Serviço Social (Uece). É pesquisadora na área de gêneros, gerações e sexualidades. Membro do Laboratório de Direitos Humanos e Cidadania (Labvida) e integra o Núcleo de Acolhimento Humanizado às Mulheres em Situação de Violência (NAH).