Bemdito

Três mitos desmentidos sobre mudanças climáticas

Prêmio Nobel de Física para cientistas do clima é oportunidade para questionar mitos difundidos sobre o assunto
POR Juliana Diógenes
(Foto: Unicef)

No dia em que o Prêmio Nobel de Física foi entregue para três cientistas que desvendaram a complexidade do funcionamento de sistemas como o clima terrestre — importante reconhecimento da ciência do clima —, é necessário voltar ao básico: se o assunto é complexo, um dos primeiros passos para compreender a problemática pode ser tentar entender o mais simples.

Afinal, existe consenso entre os cientistas sobre as causas das atuais alterações climáticas? 

Mudanças climáticas, como a que está em curso atualmente, sempre ocorreram ao longo da história?

Será que o aquecimento global é mesmo tão ruim assim, se estamos registrando também recordes de temperaturas baixas?

Hoje vamos conversar sobre 3 dos mitos mais difundidos sobre as mudanças climáticas.

Este artigo foi escrito com informações do Skeptical Science (grupo de cientistas especializado em desmentir boatos sobre ciência), do Fakebook.eco (a agência de combate à desinformação ambiental, do Observatório do Clima), da Convenção-Quadro do Clima das Nações Unidas (UNFCCC), do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e de periódicos especializados na área.

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1. Não existe um consenso amplo entre os cientistas sobre as causas das atuais alterações climáticas

Na verdade, existe. E não é recente. Vamos voltar um pouco no tempo? 

Mais de dez anos atrás, um estudo da Universidade de Stanford analisou a produção científica de 1.372 pesquisadores do clima em todo o mundo e constatou que 97% deles já apoiavam o consenso em torno da mudança climática antropogênica. 

Os outros 3% são estudos contrários ou contêm erros ou não podem ser replicados. A pesquisa foi publicada em 2010.

Recentemente, em 2019, outra pesquisa reafirmou esse consenso ao mostrar que a concordância entre cientistas do clima subiu para 100%.

A investigação se baseou em 11.602 artigos, revistos por pares (colegas de investigação), que haviam sido publicados nos primeiros sete meses daquele ano.

2. As alterações climáticas são uma parte do ciclo natural do planeta. Elas já aconteceram no passado e sempre ocorrerão

Antes de desmistificar essa ideia, precisamos primeiramente diferenciar alguns conceitos. Vamos começar pela diferenciação dos termos “variabilidade climática” e “alteração climática”. 

Para nos ajudar, vamos recorrer à Convenção-Quadro do Clima das Nações Unidas (UNFCCC), órgão reconhecido internacionalmente, que utiliza o glossário do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) como fonte de referência.

Segundo a UNFCCC e o IPCC, a “variabilidade climática” diz respeito às variações no clima em todas as escalas de tempo e espaço da história do planeta Terra. Portanto, é um processo que não depende dos eventos meteorológicos individuais.

O “pulo do gato”, porém, está nas razões para essa variabilidade, que podem ser de duas naturezas:

– Variabilidade interna: devido a processos internos naturais dentro do sistema climático 

– Variabilidade externa: devido às variações causadas por fatores externos, no caso, pela ação do homem – ou seja, por uma razão antropogênica (palavra que deriva do termo “antropo” = homem + “genos” = geração + ico)

A “alteração climática” ou “mudança climática”  é uma consequência das variações do clima – das variabilidades interna ou externa, como falamos. Quando se usa o termo “mudanças climáticas”, normalmente refere-se a qualquer alteração no clima ao longo do tempo, que pode ter sido causada por variações naturais ou atividades humanas. 

Essa mudança climática pode ser identificada por testes estatísticos, por exemplo, que verificam as variáveis ao longo do tempo. Outro diferencial importante: o termo “mudança climática” é usado para caracterizar alterações na composição da atmosfera terrestre que persistem por um período extenso, como décadas.

Assim, “variabilidade climática” está mais associada a processos naturais, variáveis, enquanto “mudança climática” é um conceito utilizado para se referir a um processo global, associado ao dedo do homem na natureza.

Agora que pontuamos essas diferenças, podemos seguir.

Os gases de efeito estufa, principalmente o CO2, controlaram as mais antigas mudanças climáticas da Terra. Desta vez, porém, os humanos são a causa, principalmente pelas emissões de dióxido de carbono.

Os gases de efeito estufa – principalmente o CO2, mas também o metano – estiveram envolvidos na maioria das mudanças climáticas pelas quais a Terra passou. Quando os níveis de CO2 aumentavam, a temperatura global esquentava.

Quando esses níveis saltaram com muita rapidez, causando mudanças abruptas, o aquecimento global foi extremamente desordenado, tendo levado, em algumas ocasiões, às extinções em massa. 

A concentração de gás carbônico hoje na atmosfera é a maior dos últimos 800 mil anos. Essa detecção é feita por cientistas que conseguem medir bolhas de ar do passado, presas no gelo da Antártida.

Hoje estamos emitindo enormes quantidades de CO2, em um ritmo mais rápido até do que as mais destrutivas mudanças climáticas da história da Terra.

Segundo o Skeptical Science, é importante reforçar que a vida floresceu nas eras passadas devido à presença de CO2 na atmosfera, quando os gases de efeito estufa estavam em equilíbrio com o carbono nos oceanos e a intempérie nas rochas. 

A vida na Terra, a química dos oceanos e os gases atmosféricos levaram milhões de anos para se ajustar a esses níveis de equilíbrio que vemos hoje.

3.  Temos tido recorde de temperaturas baixas. Logo, o aquecimento global não existe ou não é tão ruim assim.

Este é um dos maiores mitos sobre as mudanças climáticas que acreditamos.

Mas a verdade é que, paradoxalmente, alguns eventos extremos de frio – como a neve no sul do Brasil em julho de 2021 – podem ser causados pelo aquecimento global.

Quando as temperaturas no Ártico aumentam, derretendo as geleiras, o ar do inverno viaja para o sul terrestre. Os ventos atmosféricos seguem viagem, assim, atingindo a América do Norte e a Europa. 

O motivo para usarmos a expressão “mudança climática” vem desse processo. Assim, classificamos como “mudança climática” porque a tendência de aquecimento muda os padrões climáticos que conhecemos.

A consequência disso são fenômenos inesperados e, portanto, estranhos, como as ondas de frio.

Juliana Diógenes

Editora assistente do Bemdito, é jornalista pós-graduada em Jornalismo Literário. Foi repórter no jornal O Povo e no Estadão. Já fez trabalhos freelancer como assessora de comunicação, produtora, redatora web, copywriter e revisora. É mestranda em Educação para Mudanças Climáticas e Sustentabilidade na Universidade do Porto (Portugal).