Bemdito

Um par

Um conto sobre o escritor e sua obsessão com a palavra justa
POR Luan Brito

“Já fizeram antes de mim”. É o que pensa o escritor, mas, de algum modo, o pensamento não chega a sua boca que, entre resignação e tédio pragueja “merda” baixinho. Ele coça os olhos. São 3 da manhã. Está em sua casa no centro de Fortaleza. É uma madrugada chuvosa. De onde está pode-se ouvir de vez em quando pneus cantando no asfalto e o som do que imagina serem gatos saltando do telhado em poças d’água. Tem diante de si uma pilha de papel com dois dedos de altura. Tratam-se de artigos científicos para traduzir para o português, um bico terceirizado por um colega bem mais competente, e por isso mesmo, mais ocupado. Antes de efetivamente começar, houve uma tentativa um tanto débil de se interessar pelo trabalho. O escritor organizou uma fila em que os artigos que parecessem mais interessantes estariam no topo, e agora, conforme as horas passaram, encarava o título “Hidrólise, desintoxicação e fermentação alcoólica da fração de hemicelulose da fibra de palmeira”. “Merda”. O escritor sabe que a essa altura não possui o gênio necessário para traduzir mais nada, por isso, neste momento, refere-se a si mesmo como “o escritor” e não como “o tradutor”. Decide escrever à mão nas margens dos papéis já traduzidos. Escreve apenas uma palavra, mas com uma imensa ternura que contrasta com o seu semblante desgostoso e judiado pela longa noite de trabalho, uma palavra que é o nome de uma mulher por quem suspeita estar apaixonado, mas se recusa a pensar nisso agora. O escritor se demora escrevendo o nome da mulher, embora ele seja tão curto quanto o seu próprio, e faz isso porque, sem saber, tem o desejo meio ingênuo de impregnar nesta palavra tanto quanto puder de suas sensações, devaneios sobre beleza, excitação, salvação e gozo. O desejo rapidamente vira uma ânsia frustrada por saber que alcançar tal efeito é impossível. O escritor sabe que apenas para ele esta palavra carrega tantos significados. Mais do que isso, sabe que a subjetividade exacerbada e o hermetismo pavimentam o caminho para o fracasso. É tarde, entretanto, e ele contém suas expectativas, embora lamente ao divagar se o fracasso, ainda que brando, é intrínseco a tudo que escreve. Depois de um pequeno estalo, pensa que a literatura sempre oferece a possibilidade de jogos, e imagina escrever um texto cifrado, a materialização de um enredo impreciso, uma prosa errática que apenas ele e a mulher possuam as chaves interpretativas necessárias para compreender, mas após uma longa interrupção, o escritor debocha de si mesmo ao se dar conta de que está um pouco excitado por lembranças que vêm à tona. A mão direita trabalha o lápis na outra margem do papel, mas em sua cabeça o escritor está em um apartamento que visita pela primeira vez. Sentada em seu colo, uma mulher de peito nu o beija ofegante, ao afastá-la, pode ter a visão completa do seu corpo, os seios pequenos e erguidos, a cintura fina que tem entre suas mãos, os cabelos curtos e caindo para frente, escondendo parte de um rosto tão bonito e tão próximo, que apenas por um momento se confunde com o do próprio escritor como um espelho, mas como isso poderia ser possível, se o rosto dela, ao contrário do seu, possui traços tão delicados? pergunta-se ele tocando os próprios lábios e sentindo nos dedos a respiração picante. A imaginação do escritor ronda o apartamento. Ele beija a mulher, demorando-se no pescoço, num ponto que descobriu ser mais sensível que os demais, a mulher acolhe sua nuca com as mãos, que estão suadas, ela inclina o corpo para trás, projetando o queixo no cabelo do escritor, que recebe o gesto como um cafuné, sua respiração, tão próxima, faz cócegas em seu colo como se fosse uma pluma. Há música, mas eles não ouvem, embora pareçam dançar. Um casal de gatos brinca alheio a cena, insetos rondam as plantas, uma taça está em cacos no chão, ao lado do sofá. A visão do vidro parece finalmente despertar o escritor que de novo se vê sentado à sua mesa de trabalho, às 4 da manhã. Faz um frio abafado que gruda no corpo como um macacão encharcado, uma sensação que é o avesso do aconchego onde sua mente se refugiara há pouco. Percebe que escreveu novamente o nome da mulher, desta vez na outra margem do papel e passa o dedo sobre a palavra escrita como se pudesse deste modo fundir-se de novo ao corpo dela. Pode intuir que olheiras já se formam em seu rosto. Limpa um suor frio da testa. “Já fizeram mil vezes antes de mim”, pensa novamente repreendendo-se por rascunhar mentalmente um texto cheio de clichês românticos e eróticos em que um escritor é perseguido pela imagem da mulher que deseja. O escritor, todavia, se satisfaz por não ter cedido ao ímpeto de escrever as cenas que imaginou, embora as tenha visto de forma tão cristalina como se as revivesse. Levanta-se decidido a ir deitar e se espreguiça demoradamente. Ao abaixar mais uma vez o rosto na direção da mesa, vê no papel à sua frente, em sua caligrafia, o nome que acabara de escrever duas vezes, uma em cada margem, como se cercasse tudo o que ele se propusesse a fazer a partir dali. O escritor então sorri satisfeito com a poderosa imagem de palavras gêmeas abraçando a sua vida. Pensa que um par de palavras pode ser, finalmente, uma das melhores coisas que já escreveu. 

Luan Brito

Escritor, mestrando em Estudos da Tradução pela UFC.