Bemdito

A astronomia da família em “Paris, Texas”

O peculiar estilo do cineasta Wim Wenders ao narrar os percalços familiares
POR Felipe Pinheiro

“No princípio era o verbo”
João 1:1

Em 1984, o alemão Wim Wenders já era cineasta de feitos notáveis e um nome muito bem falado nas Ágoras da sétima arte. Contudo, nada preparava cinema e público para o que Wenders faria em “Paris, Texas”, lançado naquele ano, filme que o ascendeu da Ágora ao Olimpo, e uma odisseia com beleza, humanidade e sentimento para, se não entrar direto na veia, botar o dedo numa ferida; se não botar o dedo numa ferida, acarinhar uma cicatriz; e se não acarinhar uma cicatriz, no mínimo lacrimar a barra dos olhos de qualquer cidadão. Quando não tudo isso ao mesmo tempo.

A saga começa quando Walt, atarefado empresário de Los Angeles, é contatado para resgatar seu irmão Travis, um misantropo que perambulava pelo deserto, mudo e desmemoriado, já fazia quatro anos. De posses, além da roupa do corpo, Travis só trazia a fotografia de um lote de terra árida comprado na remota Paris, estado do Texas, lugar onde, garante Travis, ele fora concebido, na primeira noite de amor de seus pais.

Instalado na casa do irmão, Travis reencontra o pequeno Hunter, seu filho. Durante os quatro anos de desterro do pai, Hunter vivera sob os cuidados de Walt e sua esposa, Anne, que se descobriu mãe afilhando o sobrinho. 

O ilegível silêncio de Travis aos poucos se desarma, e conforme ele ganha voz, conforme principia o verbo, vai se delineando nas conversas e olhares o passado dilacerado daquela família. Travis e Hunter, antes arredios, começam a se afinar por uma ausência em comum. Em Hunter, essa ausência paira como a sombra de uma mãe; em Travis, se marca como a nódoa de um amor arruinado. A mãe e o amor residem na mesma mulher, Jane, que também desgarrou perdida há tempos, e de quem só se sabe algumas vagas notícias.

Atraídos pela força gravitacional de Jane, emanada de onde quer que ela estivesse, Travis e Hunter conspiram às escondidas uma fuga ao encontro dela. Embarcam em uma picape, só os dois, tão íntimos e estranhos um ao outro como todo pai e filho, e vão. O destino é Jane, o caminho ainda não se sabe.

Em uma légua distante da estrada, à procura da mãe, o menino explica ao pai a origem do universo. Segundo o menino, tudo iniciou com um broto maciço de matéria que, não aguentando a força de suas partes, explodiu e atirou pelo espaço o ingrediente de todas as coisas hoje existentes e nomeadas. No instinto, eu suponho, o pai devia compreender aquele arranjo, pois assim era aquela família, um broto maciço de matéria, germinado em Paris, estado do Texas, e agora estilhaçado no vazio por não suportar a força de suas partes.

Assim, viajando entre desolados cinturões de asfalto e sob as abóbadas multicoloridas do firmamento, buscando Jane como se buscam os mistérios escondidos atrás das cortinas do universo, Wim Wenders vai falando da família de Travis, como jeito de falar de todas as outras.

Como jeito de dizer que talvez as famílias existam como exemplo da teoria que o menino faz da criação, que talvez sejam uma explosão do cosmos, lançando pelos ares corpos feitos de uma mesma substância, que se gravitam ou se repelem; em alinhamento ou colisão; vezes em órbita, vezes a esmo; uns no rumo da luz, outros do vácuo obscuro.

Com coração e espírito avariados para além do reparo, para além da salvação, Travis se deu conta de que, como força geradora e destrutiva daquele arranjo, só lhe restava uma missão: realinhar mãe e filho numa mesma trajetória, confessar a Jane o amor que lhe devia e havia negado, ouvir dela o que restou de inteiro na história dos dois… E depois extraviar. Assim foi.

A narrativa se encerra sem botar na tela o paradeiro final de Travis, mas em mim não há resquício de dúvida sobre qual tenha sido. Se não encontrava caminho para a luz, também se recusava a cair no vácuo obscuro, então regressou ao chão que sentia como a membrana de um útero, a “Paris, Texas”, último reduto onde se via fazendo sentido como coisa existente e nomeada, em forma de um broto maciço de matéria, na primeira noite de amor dos seus pais.

Regressou para, depois de explodir e vagar, esperar a hora de apagar e calar-se de vez, agora ligeiramente feliz. No princípio era o verbo.