Bemdito

Os viciados e os segredos dos seus vícios

O que o consumo de drogas prescritas ou ilícitas dizem sobre o meio social de seus consumidores e produtores
POR Camille C. Branco

O que o consumo de drogas prescritas ou ilícitas dizem sobre o meio social de seus consumidores e produtores

Camille Castelo Branco
camillecastelobranco@gmail.com

Não me recordo de ter entrado em uma casa de classe média, como visita, e não localizar, disponível nos cômodos, uma caixa ou duas de Rivotril, Lexotan ou Alprazolam. São todos medicamentos benzodiazepínicos de ação ansiolítica rápida, que, a depender da dosagem e vulnerabilidade orgânica do usuário, podem ser ministrados no combate à insônia. Todos três possuem tarja preta, o que significa que seu uso prolongado pode causar dependência química ou psicológica. É uma droga bastante doméstica, muito usada por mulheres que talvez explodissem em colapso (ou, mais ameaçador ainda, revolta) pelo acúmulo de jornadas prolongadas de trabalho, caso não fossem sedadas. A prescrição é útil.

Para a Antropologia, minha disciplina de formação, a lógica que qualifica o consumo e a adicção em drogas lícitas e ilícitas é muito menos bioquímica do que social. Antropólogas como Delma Pessanha Neves defendem que você será considerado viciado se começar a transgredir as normas determinadas socialmente em torno do uso de substâncias: se seu consumo começar a comprometer suas atividades laborais, se começar a prejudicar suas relações cotidianas, você é acusado de vício. Do contrário, nossa sociedade não é abstêmica. Drogas lícitas e ilícitas são parte de inúmeros rituais sociais, como reuniões de negócios, festas e celebrações religiosas. Há, em torno destes momentos, sistemas de valores e crenças que determinam graus de tolerância relativos ao comportamento dos consumidores. Estas estruturas simbólicas criam disciplina e controle.

Além disso, o consumo de drogas prescritas ou ilícitas, como crack, cocaína e heroína não se descola dos sistemas de poder que orientam o meio social de seus consumidores e produtores. É impossível falar em política de drogas sem falar de racismo: é o racismo que distingue e elege aqueles considerados usuários e traficantes, aumentando e reduzindo a pena e contribuindo para os números já inaceitáveis de encarceramento da população negra no país. É a mesma lógica racista que orienta a ação policial a invadir regiões periféricas torturando e assassinando uma população predominantemente negra a partir do entendimento de que drogas ilícitas são produzidas nesses espaços – desconsiderando que a classe alta no Brasil, além de ser a que mais consome drogas, também as trafica.

Falar sobre drogas também é falar de mulheres em situação de violência. Há dez anos pesquisando violência, vi quase como receita pronta os relatos apontarem o momento da alcoolização como coincidente com a precipitação de violência doméstica. É uma característica que se repete em inúmeras pesquisas estatísticas e qualitativas sobre violência doméstica no país. Além disto, mulheres em estados alterados de consciência – e, portanto, com a possibilidade de consentimento sexual comprometida – estão muito mais vulneráveis aos crimes de estupro. Enquanto isso, em consultórios de psiquiatria, continua a ser comum a prescrição de Ritalina, um estimulante do sistema nervoso central de ação semelhante à cocaína, para crianças com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e jovens estudando para concursos. A discussão sobre drogas é mais intrincada do que parece: ela toca em questões relativas à saúde pública, indústria farmacêutica, genocídio da população negra, misoginia e mercado.

Meu pai é um sociólogo que trabalhou durante muitos anos em equipes multidisciplinares de recuperação de viciados. A abstinência sempre se mostrou a pior etapa: ele presenciou usuários beberem perfume, engolirem escovas de cabelo, venderem as telhas da casa para poderem comprar mais drogas. Sua leitura sempre foi a de que um viciado era o que ele chamava de “Paciente Identificado” – um chamariz visível para problemas sociais mais profundos e menos visíveis, como abuso familiar, fome, exposição à criminalidade, violência sexual, homofobia, desemprego, viver em situação de rua. Aquilo que se considera uso excessivo de substâncias não surge do nada. Não raro tem a ver com trauma e uma tentativa de anestesiar seus efeitos.

Clínicas de reabilitação, Alcoólicos Anônimos (AA) e Narcóticos Anônimos (NA) continuam sendo as formas mais conhecidas e aceitas de enfrentamento do vício. Os doze passos recuperam pouco do ponto de vista estatístico e as recaídas não são apenas aceitas, como também esperadas. Embora os métodos do AA e NA sejam passíveis de críticas, sobretudo pelo teor religioso que marca sua retórica, há algo nos grupos de apoio que, penso eu, merece maior atenção e ampliação: nestes espaços, a responsabilidade pelo acolhimento dos usuários é coletiva. Todos os presentes são responsáveis pela vida de seus pares, criando-se, inclusive, redes de apadrinhamento para favorecer os laços. Acredito que o AA e o NA são formas embrionárias de um projeto urgente – toda a sociedade precisa se responsabilizar por pensar políticas públicas a respeito de drogas que não simplifiquem, nem brutalizem uma questão com este grau de complexidade. Se o uso de drogas e o imaginário em torno dele são sociais, debatamos sobre o assunto de forma séria e consubstanciada como sociedade.

As questões que apontei neste texto são de caráter estrutural. No entanto, gostaria de finalizá-lo afirmando uma convicção pessoal. Um usuário de drogas, assim como eu, assim como você que me lê, também está tentando atravessar o dia. Pode ter sido um dia de merda. Pode ter sido um mês de merda. Pode ter sido uma vida de merda. É impossível, para mim, não relembrar das palavras do Philip Roth em Pastoral Americana quando escreve: “Ninguém passa pela vida isento de amarguras, desgostos, confusão e perda. Mesmo aqueles que tiveram tudo de melhor quando crianças, mais cedo ou mais tarde recebem sua cota regular de sofrimento”. Os únicos demônios que conheço intimamente são os meus. Luto com eles com as armas que possuo. Inúmeras vezes, inúmeras mesmo, eu perco. Sendo assim, acho pouco justo julgar as armas escolhidas por outras pessoas para enfrentar demônios que eu sequer compreendo. Suspeito que solidariedade e politização sejam alternativas melhores para pensar sobre drogas do que hipocrisia, moralismo e conservadorismo.

Camille C. Branco

Antropóloga, doutoranda pela UFPA, desenvolve pesquisa sobre mobilização social na Amazônia, feminismos, corporalidades políticas e violência.