Bemdito

Castigue seus costumes

A série BoJack Horseman mostra como comédia pode ser uma das ferramentas mais eficazes de que dispomos para subverter a autoridade
POR Camille C. Branco

Mr. Blue
Don’t hold your head so low
That you can’t see the sky

Mr. Blue
It ain’t so long since you were flying high

(Catherine Feeny/ Mr. Blue)

Em Watchmen, história em quadrinhos imaginada por Alan Moore, consta a seguinte anedota: Um homem vai ao médico, diz que está deprimido. Diz que a vida parece dura e cruel. Conta que se sente só, em um mundo ameaçador, onde o que se anuncia é vago e incerto. O médico diz: “O tratamento é simples. O grande palhaço Pagliacci está na cidade, assista ao espetáculo. Isso deve animá-lo”. O homem se desfaz em lágrimas. E diz: “Mas doutor… Eu sou o Pagliacci”. 

Gosto desta historinha em especial porque ela me lembra de que foi só muito recentemente que constatei ser uma menina engraçada. Não foi uma ideia original, a conclusão foi apontada por meus amigos. Para mim, a presunção de ser engraçada não combinava com minha imagem de vitoriana atormentada. Eu era trágica, não engraçada. Quando meus amigos ressaltaram que eu possuía um tipo de humor muito particular, um pouco mórbido, bastante irônico e não apropriado para todo tipo de paladar, me ocorreu que, em torno do humor, existem variadas gradações. 

Existe o humor imediato, feito de saber contar bem uma piada, acertando ritmo, entonação, conectando o ouvinte com o elemento surpresa, coisa que eu não conseguiria fazer nem para salvar minha vida. Existe o humor que disfarça ódio e ressentimento e é feito para alimentar relações de poder desiguais, uma modalidade bastante praticada por comediantes brasileiros. Há o humor trash e nonsense, feito para misturar risada e constrangimento, coisa que também não sei como fazer. Mas, de forma geral, o humor que se aproxima da arte sempre esconde, embrulhado na comédia, um componente de tragédia. 

Por esta razão é tão revigorante acompanhar a existência de seriados como o cult BoJack Horseman, uma das criações mais ousadas da usualmente repetitiva Netflix. Trata-se de uma espécie de comédia do absurdo, uma animação em 2D – um formato já considerado ultrapassado por modalidades mais tecnológicas de desenho animado – feita para adultos, ambientada em uma Hollywood em que humanos convivem com animais antropomorfizados na selva do dinheiro, sucesso, sexo, sarjeta e drogas da indústria cinematográfica e de televisão. O protagonista, BoJack, é um decadente ator de comédia em corpo de cavalo, que já foi sucesso em um programa de sitcom para família e, no momento em que a série é ambientada, vive solitário em uma mansão, junto a uma amigo humano ocupado demais em ser uma decepção e fumar maconha. O ator também está envolvido em uma relacionamento infeliz com a gatinha cor de rosa chamada Princess Carolyn. A trama se coloca em andamento quando uma editora – cujo agente literário é um pinguim, em uma divertida referência à Editora Penguin Books – contrata a escritora Diane para produzir a biografia do protagonista. 

BoJack Horseman é um programa tão especial porque não é uma comédia sobre virtude humana. BoJack não é apenas um ator decadente: ele também é narcisista, egoísta, cruel, deprimido, autodestrutivo, desleal e tem problemas com adicção em álcool e drogas. Vindo de uma família disfuncional, ele tampouco é um vilão monocromático, feito para ser odiado. BoJack faz muito mal para as pessoas em torno dele, mas faz mal também para si mesmo. É difícil não sentir compaixão pelo quanto ele sofre. Também é difícil não se impressionar com a inteligência do texto, que contém referências a Ibsen, Emma Goldman e conta até mesmo com uma aparição hilária do recluso escritor Salinger, irritadíssimo porque as pessoas só leram, de sua obra, O apanhador no campo de centeio

Ao mesmo tempo em que faz uma sátira impiedosa da superficialidade e da máquina de moer gente que é a indústria cultural, BoJack Horseman também possui momentos de intensa sensibilidade emocional. Não consegui conter as lágrimas quando, ainda no começo das temporadas, Diane finaliza a escrita da biografia de BoJack. Em uma coletiva de imprensa, ele apanha o microfone, dizendo que ela é a pessoa que o conheceu mais profundamente e, ainda assim, o retratou como alguém horrível. Suplicante, ele diz que tem apenas uma pergunta a fazer para Diane: ela acredita que há esperança para que BoJack melhore? Ela considera que ele tem jeito? A personagem fica em silêncio. BoJack Horseman foi uma indicação do meu colega de coluna neste Bemdito e amigo pessoal, o Ricardo Evandro, que passou uma temporada da nossa convivência me chamando de Diane, não de Camille.

Penso que é justo nesses momentos, raros, porém luminosos, que o humor mostra sua face mais triunfal: quando consegue, como o bobo da corte diante do rei, dizer da brutalidade que nos envolve, dizê-lo do jeito mais contundente, não misericordioso e ser tolerado, porque o fez por meio do riso. O insuportável da vida pode ser nomeado e pensado, porque é feito como comédia. É como afirmou Midge Maisel, citada em meu texto da semana passada: “Comédia é abastecida por opressão. Pela falta de poder. Por tristeza e decepção. Por abandono e humilhação”. Jane Austen, quando escreveu uma das mais famosas histórias de amor de todos os tempos, Orgulho e Preconceito, também entregou para o leitor uma mirada astuta e engraçada sobre o ridículo dos modos do período em que viveu. Shakespeare inseriu a mais bela poesia em comédias de teatro feitas para serem exibidas para o povo, como Sonho de uma noite de verão. 

A verdade é que a comédia é uma das ferramentas mais eficazes de que dispomos para questionar e subverter a autoridade. É o que nos ensinam, por exemplo, as paradas de orgulho LGBT, quando corpos que são alvo de escárnio, criminalização e ódio, se reúnem em uma grande festa marcada pelo deboche, pelo exagero e pela alegria como política. Creio que o humor nos convoca a, sempre que tivermos oportunidade, fraturar o medo, a violência e a submissão, castigando anarquicamente o pior de nossos costumes por meio do riso. 

Camille C. Branco

Antropóloga, doutoranda pela UFPA, desenvolve pesquisa sobre mobilização social na Amazônia, feminismos, corporalidades políticas e violência.