Bemdito

O clima eleitoral está no ar!

As primeiras animações de uma campanha eleitoral que promete paixões intensas e disputas históricas
POR Monalisa Soares
Ricardo Stuckert

A temporada política está ficando animada. O mês de março trouxe eventos importantes para o calendário eleitoral. O primeiro deles foi o início do período da Janela Partidária. Se você acompanhou o noticiário político nas últimas semanas, observou a migração de deputados/as estaduais e federais entre legendas a todo vapor. Essas movimentações, permitidas até o próximo dia 02 de abril, são importantes já que indiciam candidaturas e formações de alianças.

Outro evento que também se aproxima e assume relevância  nas folhinhas do calendário é o prazo máximo, também de 02 de abril, para desincompatibilização: prefeitos/as e governadores com a intenção de se candidatarem a outros cargos políticos devem renunciar aos mandatos atuais até a referida data. 

O calendário imprime, portanto, um ritmo ao jogo político que pode ser sentido nas movimentações das principais pré-candidaturas em disputa ao executivo federal.

O presidente Bolsonaro, por exemplo, acompanhou ao longo do mês a migração de deputados/as aliados/as para o Partido Liberal (PL), que abrigará sua candidatura à reeleição, participando, inclusive, de eventos nos quais assinou a ficha de filiação de parlamentares ao lado de Valdemar Costa Neto, presidente do partido. Ainda que alguns aliados/as migrem para outras legendas, a intenção do presidente tem sido mobilizar o maior número de prováveis candidaturas no PL, para assim reforçar a sua candidatura também por associação ao número de votação (“onda 22”). 

Além das movimentações partidárias, Bolsonaro tem sido mais explícito sobre a escolha do candidato a vice na chapa. Entre os principais motivos, segundo o presidente: a confiança de que não será traído – “Isso tudo tem que ser levado em conta. Eu tenho que ter um vice que não tenha ambições de assumir a minha cadeira ao longo de um mandato”.

Em outro trecho menciona que a escolha do vice estaria além de cálculos eleitorais: “Devemos ter um vice que demonstre à população que não é para ajudar a ganhar a eleição, é para ajudar a governar o Brasil”, “Ganhar eleição é bem mais fácil —ou menos difícil— do que governar”. De acordo com as entrevistas do presidente à mídia, a escolha será de fato por um militar, as maiores chances contando a favor do Ministro da Defesa Braga Neto.

Nas fileiras de Lula, dois movimentos reforçaram a estratégia das amplas alianças antibolsonaristas. O primeiro, a retirada por Guilherme Boulos (PSOL) da pré-candidatura ao governo de São Paulo e a sua disponibilidade a disputar uma vaga na Câmara dos/as Deputados/as. De acordo com o psolista, a decisão pelo recuo se deu em virtude da defesa de uma “unidade de esquerda” para derrotar Bolsonaro e também encerrar a hegemonia tucana em São Paulo. 

A busca por um mandato, além de contribuir com a tarefa partidária de ultrapassar a cláusula de barreira, tem a “importância de fortalecer e de criar uma grande bancada da esquerda no Congresso Nacional”. De acordo com Boulos, “Hoje o Centrão governa o Brasil. Precisamos ter força para [reveter] a Reforma Trabalhista, o Teto de Gastos e aprovar mudanças populares. […] O que está em jogo neste ano não é apenas ganhar uma eleição, mas tirar o Brasil do buraco e resgatar a esperança. Eleger Lula é decisivo, mas vamos precisar de um Congresso que expresse os interesses populares”.

A segunda movimentação envolveu a filiação de Geraldo Alckmin ao Partido Socialista Brasileiro (PSB). Sua entrada no partido demarca o primeiro ato de um enredo – o convite para ser vice na chapa petista – que se espera que tome contornos mais concretos em abril com o lançamento da pré-candidatura de Lula (PT). 

No evento de filiação, ocorrido no dia 23 de março em Brasília, o ex-tucano elogiou o ex-presidente e demarcou seus principais diferenciais na disputa eleitoral deste ano: “Temos que ter os olhos abertos para enxergar, a humildade para entender que ele [Lula] é hoje o que melhor reflete e interpreta o sentimento de esperança do povo brasileiro. Aliás, ele representa a própria democracia porque ele é fruto da democracia”.

Em outro momento, ao rememorar os embates pregressos com Lula, Alckmin reafirmou que ambos sempre respeitaram a democracia, numa evidente contraposição entre eles e Bolsonaro. O presidente também foi seu alvo de críticas em virtude do negacionismo em meio à pandemia, os ataques ao STF e à lisura das urnas eletrônicas. 

Além das críticas a Bolsonaro, e elogios a Lula, Alckmin mostrou sua disposição para iniciar as movimentações políticas em apoio ao petista: “Fiquei esse tempo todo sem falar, aguardando o momento adequado. Agora é que vamos começar a viajar, conversar, explicar, convencer de maneira respeitosa, mas mostrando a realidade que estamos vivendo e os riscos que o povo brasileiro está correndo”

Cabe destacar que nem tudo são flores no percurso do petista. A dinâmica de negociação dos estados está ganhando força, e esse é um típico período em que problemas podem se anunciar. Um bom exemplo é o conflito no PT de Pernambuco o qual levou Marília Arraes a optar pela saída do partido. O avanço do ano eleitoral imprime um ritmo que tem contribuído para efetivar a estratégia da frente ampla, o que, por sua vez, demandará cada vez mais da atuação político-partidária de Lula.

Monalisa Soares

Doutora em Sociologia e professora da UFC, integra o Laboratório de Estudos sobre Política, Eleições e Mídia e se dedica a pesquisas na interface da comunicação política, com foco em campanhas eleitorais, gênero e análise conjuntura.