Bemdito

Você conseguiu ajudar seu filho a lidar com medos e perdas na pandemia?

Adolescentes que ficaram em isolamento social foram alvo de duplo sofrimento psíquico: deles e dos pais, diz psicóloga
POR Juliana Diógenes

“Aborrecente”: atitude de adolescente, irrequieto, confuso e desobediente. Quantos de nós não agimos um pouco como “aborrecentes” nos últimos meses? Na adolescência, minha mãe aboliu a palavra “aborrecente” do vocabulário em casa, pois entendia como desrespeitosa – assim, passei também a detestar o termo.

Aqui, porém, uso a expressão para chamar atenção a um assunto sério: o descuido com que as famílias encaram o sofrimento psíquico de crianças e adolescentes. “É fase”, “coisa da idade”, “mimimi”, “vai passar”, alguns pais dizem. Será? 

Em entrevista ao Bemdito, a psicóloga, psicanalista, professora da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e doutora em Psicologia Clínica na Universidade de Santiago de Compostela (Espanha), Alessandra Xavier, pede que os pais não subestimem os problemas dos filhos.

E explica por que é importante que a família chegue junto, com um olhar compreensivo, sem julgamento, pressão ou ameaça, e estenda a mão, oferecendo ajuda e buscando suporte profissional. 

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Juliana Diógenes // O UNICEF publicou em junho um
relatório sobre os impactos da Covid-19 entre crianças e adolescentes. Dos pais entrevistados, 56% disseram que algum adolescente da casa apresentou um ou mais sintomas relacionados à saúde mental. Como os adolescentes têm lidado com este período?

Alessandra Xavier // Os adolescentes nesta pandemia se viram diante de uma série de ataques. Muitos se viram diante da falta de recursos para poder assistir às atividades remotas, sem Internet, sem celular, sem condições de acompanhar aulas pela ausência de materiais didáticos. A pandemia revelou a expressão das injustiças sociais. Na medida em que tiveram de ficar em casa, foram mais alvo de violências, ataques, discriminações e do sofrimento psíquico também dos seus pais. A própria pandemia traz um aumento nos índices de depressão, ansiedade, transtorno de estresse crônico, e muitos adultos esqueceram que os adolescentes estão em processo de formação. Passaram a exigir condutas e comportamentos que nem os próprios adultos tinham condições de expressar. Também não conseguiram oferecer ajuda para que os jovens tivessem condições de passar por situações de medo, perda, angústias, dúvidas profissionais, dúvidas se teriam condições de fazer ENEM, se iriam conseguir dar conta das exigências da escola ou da universidade, temor de perda dos familiares e dos amigos, sensação de solidão, sensação de não poder estar presente, distanciamento dos amigos e dos vínculos. Ou seja, questões emocionalmente muito impactantes, sobre as quais muitas vezes a família não consegue ter um olhar sensível e nem o adolescente sabe onde pedir ajuda. Quando pede ajuda, nem sempre a encontra.

As pessoas acham que faz parte da adolescência, que vai passar, como se não fosse necessário validar as questões emocionais de sofrimento e as dificuldades que estão sendo vividas nessa fase

Ainda há despreparo dos profissionais da saúde, educação e assistência, para lidar com os adolescentes. Há muita fragilidade no campo das políticas públicas, na oferta de cuidados para adolescentes, em relação à arte, cultura, lazer, esporte e trabalho. Tudo isso incide no aumento dos índices de desesperança, baixa autoestima, automutilação e tentativas de suicídio. A OMS aponta que 14% de todos os transtornos mentais começam na adolescência. E isso não é à toa. Nessa fase, você está em construção, em um processo de desenvolvimento que vai precisar de suporte e garantia de acolhimento, de compreensão, de diálogo, de conexões emocionais, não apenas na família, mas também na escola, na vizinhança, nas possibilidades de trabalho, renda e proteção do Estado, para que não sofra violências, da doméstica à sexual.

Juliana // O que as famílias podem fazer para cuidar da saúde mental dos adolescentes?

Alessandra // É importante que as famílias se conectem emocionalmente com os jovens e as crianças para favorecer o desenvolvimento saudável da identidade. Devem haver momentos de diálogo, com aceitação e acolhimento. Os pais devem entender que essa fase pode ser difícil. É um momento de muitas dores e dificuldades. Os pais precisam também aceitar que os adolescentes não terão condições de responder às suas fantasias narcísicas.

Muitas vezes, os adultos constroem idealizações para os filhos e querem que eles se adequem para realizar os desejos e os sonhos dos pais, esquecendo que muitas vezes esse não vai ser o projeto dos adolescentes

Pode ser difícil para a família aceitar as diferenças, a construção da identidade desse adolescente, se porventura divergir de determinados valores ou expectativas familiares. As ameaças de perda de amor, a perda de respeito e o abandono são cruéis porque são vividos com muito sofrimento, e a sensação de isolamento, de não fazer parte daquela família, de ser olhado com desprezo e violência, é algo que se transforma de forma devastadora na construção da identidade, da saúde mental e da autoestima. É importante que as famílias fiquem atentas para identificar os sintomas de depressão ou um quadro de ansiedade, que levem a sério ameaças de suicídio. Que também levem a sério quando o adolescente falar de situações de violência sexual e doméstica, quando apresentar um pedido de ajuda diante de uma situação de bullying e de discriminação. Ou quando esse jovem tiver mudanças de comportamento, irritabilidade, dificuldade de dormir, sem conseguir dar conta das atividades da escola, se sentindo sem parceria, falando continuamente que é um fracasso, que a vida não tem sentido, que não é bom em nada. É importante que a família chegue junto, mas com um olhar compreensivo, sem julgamento, sem pressão, sem ameaças, para oferecer ao adolescente ajuda e para procurar suporte profissional a fim de lidar com essas questões. A família deve prestar atenção ao sono, ao tempo de Internet, às atividades que são feitas em família, e também se há tempo de convívio, se há tempo para lazer, se há tempo para a construção e o fortalecimento dos vínculos familiares. E se há espaço para conexões emocionais onde se respeite a construção da identidade e da diferença do adolescente em relação às idealizações colocadas pelos seus pais.

A família deve ficar atenta ao comportamento, mas, principalmente, se disponibilizar de forma verdadeira para esse adolescente, não só em palavras, mas em gestos verdadeiros, para que o adolescente saiba que pode contar com a família, que vai ser aceito e amado, que a família vai ser um lugar de proteção e cuidado, e não de ameaça e violência

Juliana // A saúde é um direito previsto na Constituição Federal. A saúde mental é um direito que vem sendo garantido pelo governo federal? Por quê?

Alessandra // Apesar de a saúde ser um direito garantido pela Constituição Federal, ainda existem muitos equívocos, principalmente em relação à saúde mental. A saúde mental está relacionada com políticas de habitação, de renda, de saúde, de educação, de trabalho e de diminuição dos índices de violência. A OMS elenca que a violência é um dos elementos de maior agravo à saúde mental de uma pessoa. O nosso país é portador de índices de violência, como o índice de que, a cada 15 minutos, uma criança sofre violência sexual. Temos ainda um dos indicadores mais altos do mundo de extermínio da população LGBTQIA+índices elevados de feminicídio, questões relacionadas ao racismo estrutural, violências sistemáticas relacionadas ao desemprego, à falta de direitos, aos preconceitos e à falta do sistema de garantias mínimas.

Quando temos um governo fundamentalmente contra a diversidade, contra os princípios democráticos, contra um pensamento complexo e vivo, que nega a existência das diferenças, que propõe um discurso de ódio, tudo isso vai ao contrário do que precisamos para uma saúde mental

Um governo que aumenta os índices de desemprego, que favorece uma sensação de insegurança, que favorece o aumento de armas, o discurso de violência e a intolerância, e que tem uma imensa ênfase na diminuição de direitos, tudo isso fragiliza a nossa saúde mental.

Juliana // Em julho, o Serviço de Psicologia Aplicada, da Universidade Estadual do Ceará (Uece), abriu as inscrições para atendimentos psicoterapêuticos gratuitos. O processo só durou 15 minutos, tempo em que as 200 vagas foram preenchidas. Vocês esperavam essa alta procura? E o que explica a demanda?

Alessandra // Todos os anos em que temos aberto inscrições para o SPA  acontece essa elevada procura. Sempre no primeiro dia todas as vagas se esgotam, o que nos deixa num misto de indignação, revolta e preocupação. Essa quantidade de procura por atendimento psicológico demonstra a imensa vulnerabilidade e o sofrimento psíquico existentes, além da fragilidade da rede de atenção psicossocial e da dificuldade de acesso das pessoas aos serviços de psicoterapia de forma gratuita. Cada vez mais, digo que é impossível falar de saúde mental sem considerar a dimensão da gestão e dos investimentos públicos. Muitos profissionais desenvolvem suas ações de uma forma aguerrida, porque os investimentos e a infraestrutura são pequenos. E vemos com extrema preocupação uma retomada da lógica manicomial com a ideia de construção de hospitais psiquiátricos, o que desconsidera toda a lógica da reforma psiquiátrica. 

Juliana // A discussão sobre a democratização dos atendimentos terapêuticos cresceu do início da pandemia para cá?

Alessandra //
A pandemia fez um espelho e apenas deu visibilidade a uma série de questões que já existiam há muito tempo, por questões relacionadas aos contextos socio-históricos, aos modos de vida. O nosso contexto é extremamente intolerante, narcisista, com ênfase em uma ideia de sucesso. Vivemos em um modelo extremamente predatório no campo das relações, marcadas por um modelo neoliberal micropolítico que vai incidir sobre as formas de relações. Estamos sob um modelo de consumo no qual o sujeito está o tempo todo insatisfeito, em que não pode usufruir dos seus recursos psíquicos. E também em um contexto que deixa todos com menos recursos para poder lidar com aquilo que faz parte da dimensão humana, que são as dores, angústias e tristezas. A pandemia escancarou problemas graves de conflitos e injustiças sociais que já existiam entre nós há muito tempo e nos fizeram encarar dores e problemas, que, individualmente, cada um observa que é muito difícil de resolver.

Na pandemia, ficou cada vez mais explícita a impossibilidade do discurso da meritocracia, ou de que o sujeito tem que resolver os problemas sozinho, e também ficou mais evidente como essa busca gera sofrimento

Neste contexto, precisávamos da força do coletivo, da presença das políticas públicas. Mas quando o sujeito vê que isso é inexistente, o sofrimento e a fragilidade são muito maiores.

Juliana // Mais da metade da população LGBTQIA+ (55,1%) considera que está em condições de saúde mental piores hoje em comparação com um ano atrás. Por que populações vulneráveis estão mais sujeitas ao adoecimento mental?

Alessandra // Em um país como o Brasil, com o fortalecimento do olhar preconceituoso homofóbico, do discurso de ódio, de intolerância com as diferenças, isso vai incidir diretamente sobre a população LGBTQIA+ e todas as outras populações que fazem diferença em relação a esse discurso branco, hetero, rico. Esse contexto incide num olhar de preconceito e violência direcionado à qualquer outra categoria que divirja desse estereótipo. Vai incidir na população negra, por exemplo. Até os 19 anos, a cada 10 adolescentes que fazem a tentativa de suicídio, seis são negros. Isso diz de um sofrimento psíquico em que o sujeito percebe ser impossível de viver. Ele percebe, pelo contexto social, que, dependendo da cor da pele, da orientação sexual, da identidade de gênero, das crenças, não vai ser aceito neste país. Não vai ser acolhido e não vai ter oportunidade de estudo e emprego. O que o contexto social diz é que aqui ele não é bem-vindo e não mereceria viver. E isso, quando incide sobre a adolescência, um momento em que você precisa de apoio para poder desenvolver processos de identificação e construção de identidade, esse tipo de olhar violento, negligente, opressor, que desqualifica, faz com que o sujeito tenha sérios danos na construção de autoimagem, autoestima, esperança.

Juliana // Como alguém sem recursos para custear uma terapia no Brasil hoje pode cuidar da saúde mental?

Alessandra // Temos os postos de saúde, equipamentos de porta de entrada para questões de saúde mental, além da rede de atenção psicossocial, com o CAPS. Há ainda as clínicas-escola das universidades e instituições da sociedade civil que oferecem atendimento gratuito.

Do ponto de vista individual, é valiosíssimo que cuidemos do nosso corpo, que pratiquemos atividade física, que prestemos atenção naquilo que ingerimos, na forma como lidamos com os nossos corpos. Em que medida dirigimos a esse corpo ataques, agressões, violências?

Em que medida cuido do meu sono? Em que medida cuido da minha higiene corporal? Em que medida cuido do tipo de alimento que consumo? Em que medida faço uso abusivo de álcool ou estou utilizando açúcar para dar conta das ansiedades ou estou exagerando nas doses de cafeína? Preciso também ter cuidado com as relações interpessoais. Em que medida invisto em trocas afetivas que são fonte de segurança, de proteção, de amor, de cuidado, com quem eu posso contar, seja com amigos, parceiros e parceiras, seja com vivências familiares? Ou em que medida essas relações interpessoais são marcadas pela violência, por relacionamentos abusivos, por relações tóxicas, por relações onde construo um personagem para poder me sentir querido, pertencente ou aceito diante daquele determinado grupo? Outro aspecto diz respeito a como alimento os meus pensamentos, que conteúdo consumo, como desenvolvo meu pensamento crítico, reflexivo e complexo. De que tipo de conteúdo me alimento em arte, cultura e lazer? Como invisto no desenvolvimento de novas habilidades, novos conhecimentos, que me permitam ter uma ampliação do meu lugar no mundo, de compreender o mundo que me cerca? Como invisto na minha espiritualidade, na minha conexão com meu projeto de vida, com os outros seres humanos? Como participo de projetos coletivos e solidários? Outra dimensão importantíssima: que ações desenvolvo para estar perto da natureza, para me conectar com o meio ambiente, para compreender os processos ecológicos e amplos de vida no mundo em que faço parte? Essas dimensões são importantes para construirmos um senso de pertencimento, de utilidade. Não essa utilidade pragmática para produzir lucro e, sim, um sentido, uma sensação de projeto de vida, de contribuição, de sentido da minha existência na relação com o mundo. 

Juliana Diógenes

Editora assistente do Bemdito, é jornalista pós-graduada em Jornalismo Literário. Foi repórter no jornal O Povo e no Estadão. Já fez trabalhos freelancer como assessora de comunicação, produtora, redatora web, copywriter e revisora. É mestranda em Educação para Mudanças Climáticas e Sustentabilidade na Universidade do Porto (Portugal).