Bemdito

A Alemanha está ficando verde

O que o novo momento do Partido Verde na Europa tem a ensinar ao Brasil
POR Simone Mayara
(Foto: Igor Son)

No último domingo, 26, a Alemanha foi às urnas e esse tipo de eleição costuma chamar a atenção. O mundo — ou a parte dele que gosta de política e economia- sabia a importância da espera por esse resultado.

Primeiro pelo significado simbólico: depois de 16 anos, Angela Merkel optou por deixar o poder. Não há limitação para reeleição no modelo político alemão. A chanceler deixa o cargo com 80% de aprovação e um histórico brilhante, então é correto dizer que ela optou por sair. A perfeita compreensão de sua missão marca o governo de Merkel. Conhecida pela estabilidade e confiança, soube exatamente a hora de falar e calar. A Alemanha tem sido a força econômica da Europa nos últimos anos e o ponto de equilíbrio nas crises financeiras, sobretudo a de 2008. Também tem sido parâmetro de comportamento e opinião política

As características do País e o momento de convulsão do ocidente com a ascensão da China reforçaram a importância da Alemanha e, ainda mais, a importância de Merkel. A líder certa para o caos não é barulhenta, mas assertiva e respeitada. Por 16 anos, outros líderes trocaram de lugar e a alemã continuou no seu.

Ainda assim, não conseguiu fazer seu sucessor. Na Alemanha, o voto é no partido, que terá as cadeiras proporcionais no parlamento e então formará um governo de coalizão, já que os resultados foram tão próximos. O resultado apertado deu a vitória aos Sociais-democratas, que tiveram 25,7% dos votos, 1,6 ponto percentual a mais que a União Democrata Cristã (CDU), o partido de Angela Merkel.

Para chegar à coalizão, muita negociação deve ser feita. Uma grande surpresa veio de um dos partidos a fazerem parte da coalizão: o terceiro lugar foi o Partido Verde.

Um novo momento para o Partido Verde
Sei que o foco todo das notícias foi a saída de Merkel, mas como quem gosta de analisar cenários e pensar mais à frente, o principal ponto dessas eleições foi o crescimento de 5% na votação do Partido verde. Além disso, em algumas pesquisas, “questão climática” apareceu como critério de votação mais importante que clássicos, por exemplo, a “educação”. Nas últimas eleições para o Parlamento Europeu, o Partido Verde também cresceu muito. E o que isso significa? Por que isso é importante?

Primeiro que os Verdes sentarão à mesa para compor o governo alemão, o que implica que suas pautas e demandas terão de ser ouvidas e pesarão nas negociações. O outro é que, ainda que haja uma captura do ambientalismo pela esquerda, o cenário que se desenha para o futuro é de capilarização da pauta em todos os partidos. Todo mundo vai ter que falar de verde, o que pode ser positivo. O debate pode aumentar de nível e receber o melhor dos incentivos: a concorrência. O incentivo ao contraditório é uma grande vantagem da ascensão da pauta.

Algo que talvez não seja tão positivo é a sensação alarmista dada nos últimos anos ao tema. O alarmismo e a urgência costumam ter poderes nefastos sobre as democracias. A possibilidade de que “a causa verde” justifique tudo pode ser extrapolação de quem já leu muita história e precisa analisar cenários para o futuro, mas é uma preocupação real.

Não é possível ser inocente ao achar que o tema não será usado politicamente e estrategicamente. Nesse aspecto, a preocupação do Brasil deve ser redobrada. Com o desenho de um futuro menos esquerda e direita e mais verde ou não-verde, o país que abriga a maior floresta tropical, reservas de água e potencial para gerar energia renovável deveria estar preocupado, mas não de maneira alarmista, evocando os arroubos desenvolvimentistas.

Deveria estar preocupado em investir em tecnologia e conhecimento, as chaves para o bom uso desses ativos, em potencializar a produção de alimentos e garantir a limpeza das águas, por exemplo. Muito pouco tem a ver com ideologia. É muito mais uma questão de pragmatismo. Também é pragmático assumir que não se faz tudo só pelo Estado e que prosperidade é proteção.

Com a Alemanha, a Europa e, possivelmente, o mundo ficando verde, onde o Brasil estará?

Simone Mayara

Analista política, é especialista em Direito Internacional e mestranda em Direito Constitucional e Teoria Política. Atualmente é analista política no Instituto Livre Mercado.