Bemdito

A ética da sobrevivência

Persuasion 1 (Aurora Canero)

Logo cedo a gente aprende que não pode dizer o que pensa. Caso contrário, a pena pode ser dura. Não para todos, claro. No mundo desigual, é natural que os castigos sejam nivelados de acordo com condições do momento e, principalmente, pelo grau de estabilidade (ou desestabilidade financeira). “Ah, eu falo mesmo o que penso”. Então aguente as consequências. Em vez de um jejum de palavras, sob o corajoso, pode incorrer um jejum intermitente por falta de opção. A boca paga. O estômago, depois do ato de coragem, também. Se for no emprego, rua. Se for entre amigos, unfollow e isolamento social forçado. É mais ou menos por aí. 

Para que haja pelo menos um pouquinho de coesão social, é preciso que se mantenha o mínimo de ordem. Ou seja, controle seu bico, caso dependa minimamente daqueles que os rodeiam. Se todos falarem o que querem e o que pensam, pode esperar que não sobra amigo íntimo ou inimigo mortal para contar história. A sociologia durkheimiana explica isso, mas deixemos os teóricos de lado e nos apeguemos às questões práticas e corriqueiras do dia a dia. Aquelas que não permitem tempo para elucubrações e embasamento epistemológico. Pensa rápido que seu pescoço está em jogo! 

O mais educado, da fala polida e doce, pode guardar no fundo do cérebro palavrões cabeludos que nunca irão se transformar em ondas sonoras durante situações públicas. E, para ser sincero, neste mundo corrido e arriscado, isso que importa: controle do que se vai dizer. Talvez fosse até recomendável colocar na sala de maternidade uma placa de aviso: “Você vai engolir sapos e, às vezes, cururus de sítio”. Portanto, deixemos as crianças reclamarem e falarem o que desejam, mesmo que pelo choro, a língua dos bebês, enquanto podem. Logo, logo, os adultos vêm passar a peneira e o filtro sobre o que deve ser dito em público. Interessante essa “involução”. Para comer, a gente começa falando o que quer. Depois é justamente o contrário: fale tudo o que pensa e veja no que dá. 

Nesse sentido, temos de aprender com os políticos, essas figuras públicas que recorrem aos maiores eufemismos para desqualificar adversários. “O senhor falta com a verdade. Calúnias fazem parte de sua retórica. Sua vida pública foi edificada em bases suspeitas.”. Ou seja: “Safado e desonesto, que enriqueceu propagando mentiras.”. Imagine o exercício de linguagem diário para ocupar uma cadeira daquelas no parlamento. São verdadeiros craques na arte da oratória. 

À maioria cabe a ética da sobrevivência, vigilância permanente da língua, sobretudo no momento de expressar desejos e pensamentos nas situações diárias. Até mesmo naquelas quase involuntárias, como na fechada recebida no trânsito, diante do iminente risco do motorista atrapalhado e sem razão responder com violência balística.

Os que dependem de tantos outros e de tantas coisas seguem medindo palavras e reservando os amigos “bons de guardar segredos” para dizer o que de fato pensam. É “sim, senhor, sem problemas” porta à fora e “é o jeito” porta de casa adentro ou via mensagens sigilosas de Whatsapp. Às vezes são sorrisos-resposta que escondem dentes cerrados de raiva. Com máscara ficou menos difícil.

Aos Jeff Bezos da vida e seus companheiros de golfe, o jogo é um pouco diferente. Parece existir o salvo-conduto aos desbravadores do espaço. A esses, a audiência pode ser frequente e risonha, diante dos maiores absurdos ditos com naturalidade. “Precisamos fazer selfies no espaço sideral” somam-se às palavras de incentivo.

Enquanto outra parte, uma base mais alargada da pirâmide, segue a máxima aristotélica: “O sábio nunca diz tudo o que pensa, mas pensa sempre tudo o que diz.” Para somar-me modestamente ao filósofo e atualizar seu discurso, acrescento que, além do sábio, existe também um bocado de gente nem tão inteligente assim, mas que sacou o que precisa dizer para sobreviver.

Por Cláudio Sena

Doutor em sociologia, professor, pesquisador e publicitário, é mestre em Ciências da Comunicação pela Universidade do Porto.