Bemdito

A tribo de Vargas Llosa

A desilusão do escritor que, ao aproximar-se do que amava, encontrou o que odiava: o autoritarismo travestido de liberdade
POR Simone Mayara
Foto: Fronteiras do Pensamento

A desilusão do escritor que, ao aproximar-se do que amava, encontrou o que odiava: o autoritarismo travestido de liberdade

Simone Mayara
simonempf@gmail.com

No dia 28 de março último, Mário Vargas Llosa completou 85 anos e é um desses caras cuja vida deve ser celebrada por muita gente. A capacidade de concatenar ideias e a fortuna de ter vivido intensamente dá-lhe um lugar de abrir mundos, olhos e situações como poucos outros. Não é raro, em rápida pesquisa, achar referências a ele como o maior escritor vivo da América Latina. Ensaísta, romancista e crítico político, não à toa Vargas Llosa é Nobel de Literatura.

Meus livros favoritos do autor são: Civilização do espetáculo e O chamado da Tribo. O primeiro é uma junção de artigos e escritos do autor sobre fatos distintos, mas que nos abrem os olhos e exibem muito claramente a transformação da vida em espetáculo, desde a banalização do erotismo à relação entre o desaparecimento da cultura tradicionalmente conhecida com a política e o poder. Como uma radiografia dos tempos atuais e do trabalho intelectual.

Mas hoje gostaria de aprofundar sobre o chamado da tribo, que tem como subtítulo Grandes pensadores para o nosso tempo. O trabalho é uma autobiografia intelectual e política. Começa com seu primeiro contato com o autoritarismo aos 8 anos, quando entendeu que o que odiava era aquilo: o abuso. Durante a adolescência, em um país tomado pela ditadura, participou de grupos de estudo clandestinos e se descrevia como “sartriano”, fugindo do dogma marxista. Por isso, um camarada o qualificou como “sub-homem”.

Acreditou num socialismo não sectário, que permitiria a crítica, a diversidade e até a dissidência. Era no que acreditava e foi com esse pensamento que defendeu a Revolução Cubana. Como o próprio descreve, sua juventude foi “impregnada por marxismo e existencialismo sartriano”.

Já na vida adulta, trabalhando como jornalista na França, veio a desilusão ao conhecer de perto grandes pensadores da construção do pensamento de esquerda que tanto admirou e ter contato com pessoas que viviam dentro do sistema socialista dos países-satélite da União Soviética. Ao aproximar-se do que amou, viu o que odiava: o autoritarismo. Viu um autoritarismo vivíssimo ali, travestido de liberdade. Por isso, o autor vagou intelectualmente por um tempo. Por não ser dado ao sectarismo, sempre leu além do permitido e foi assim que encontrou a revalorização da democracia em Camus, Orwell e Koestler.

No livro, traz suas experiências e resume a sete autores: Adam Smith, Ortega y Gasset, Hayek, Popper, Raymond Aron, Isiah Berlin e Jean- Fraçois Revel. Em páginas de leitura leve e fluida, conta a vida desses pensadores, a forma como pensam e a contribuição de cada um para a liberdade – desde Adam Smith, que conseguiu ler e reportar o funcionamento natural da geração de riqueza, a Popper, que aplicou a ideia de combate ao materialismo histórico à metodologia científica.

Questionamento e evolução não combinam com centralização das decisões. A maturidade intelectual de Vargas Llosa é bonita de ler, o chamado da tribo a que se refere no título é, na verdade, algo a ser evitado. A tribalização que ele experimentou, que unifica os argumentos, é um chamado constante no homem quando o avaliamos de forma realista. Falho e tendente às paixões, é próprio de nós abrir mão da liberdade em razão do conforto da tribo, livrar-se do fardo das escolhas. O chamado da tribo vem pelas artes, pela educação, pelo pensamento político, pela ciência. Muitos trataram disso. Nesse livro, o autor os organiza.

Se eu posso opinar, o livro é escala, e não destino final. São citadas obras mais e menos conhecidas, pontos de vista que divergem entre os sete – e até mesmo entre eles e o organizador da obra. Enfim, algo para se ter ideias, para instigar a leitura de mais textos e também para servir a uma defesa profunda e honesta da cultura democrática. Trata-se de uma afirmação da superioridade moral e material da democracia liberal diante do socialismo autoritário, não por quem apenas leu em algum lugar, mas sobretudo por quem viveu.

Simone Mayara é Analista Política no Instituto Livre Mercado. Pode ser encontrada no Instagram.

Simone Mayara

Analista política, é especialista em Direito Internacional e Mestre em Direito Constitucional e Teoria Política. Atualmente é sócia na consultoria de diplomacia corporativa Think Brasil.