Bemdito

Não há tempo para o lamento no Brasil

Da necessidade de restituir a dimensão política da morte e fazer surgir outro Brasil - do contrário, pereceremos
POR Leonardo Araújo
Criança Morta (Portinari)

Da necessidade de restituir a dimensão política da morte e fazer surgir outro Brasil – do contrário, pereceremos

Leonardo Araújo
araujovleonardo@gmail.com

No dia 4 de maio, o humorista Paulo Gustavo nos deixava, após quase um mês de luta contra o Covid-19. Mais uma vida entre as 400 mil vítimas decorrentes da política de morte levada a cabo pelo governo federal. “Morra quem tiver de morrer” é o lema entoado pelas redes bolsonaristas, as quais, embora tenham perdido certa capilaridade nos últimos tempos, continuam perversamente eficientes na disseminação de notícias falsas e discursos violentos. Essa eulogia da morte, espécie de delírio coletivo que acomete cerca de 30% da população, servindo de base sólida a Bolsonaro, completa-se pela lentidão da vacinação e mesmo por sua descontinuidade em diversos estados.

Apenas três dias depois, perdíamos Cassiano, um dos mais brilhantes músicos brasileiros, responsável pelo disco seminal Cuban Soul: 18 Kilates e por canções que embalaram os corações de milhões de pessoas como a A Lua e Eu e Eu amo você – esta última em parceria com Tim Maia.

Mas não há tempo para o lamento no Brasil. Com as lágrimas ainda escorrendo pela partida do grande soul man, no mesmo dia 7 de maio, ficamos sabendo de nova chacina no Rio de Janeiro, ocorrida um dia antes. Protagonizada, dessa vez, pela polícia civil, tratava-se da ação mais letal da história da capital, deixando 28 vítimas – um policial e 27 moradores da comunidade do Jacarezinho.

Segundo informações do El País, pelo menos 13 dos mortos não possuíam sequer relação com a investigação que embasou a operação. No entanto, isso não impediu que o governador Cláudio Castro fosse à imprensa elogiar o “trabalho de inteligência” da polícia, nem que o vice-presidente, Hamilton Mourão, corroborando com as declarações expedidas pelo comando desta, afirmasse que os mortos eram “tudo bandido”.

Por que acontecimentos como esse não paralisam o país? Por que nós, brancos, permanecemos inertes frente à sistemática eliminação de corpos negros? No artigo Mineirinho, escrito em razão do brutal assassinato, pela polícia, de José Rosa de Miranda, Clarice Lispector diz o seguinte: “Essa justiça que vela meu sono, eu a repudio, humilhada por precisar dela. Enquanto isso, durmo e falsamente me salvo. Nós, os sonsos essenciais. Para que minha casa funcione, exijo de mim como primeiro dever que eu seja sonsa, que eu não exerça a minha revolta e o meu amor, guardados. Se eu não for sonsa, minha casa estremece. Eu devo ter esquecido que embaixo da casa está o terreno, o chão onde nova casa poderia ser erguida. Enquanto isso dormimos e falsamente nos salvamos”.

Enquanto permanecemos sonsos, para evitar que a Casa Grande soçobre, entregamos a justiça nas mãos do sistema, fazendo da “brecha” lugar de emergência da carnificina, como cantaram os Racionais MC’s em Diário de um detento: “Era a brecha que o sistema queria / Avise o IML / Chegou o grande dia”.

Mas o que representa uma chacina no meio de uma pandemia desenfreada, a qual mata mais de duas mil pessoas por dia, senão a radicalização da política colonial, engendrada a partir da produção de corpos não passíveis de luto, como diz Butler? Apesar de continuar vitimando número muito maior de pessoas negras e periféricas, a situação em que nos encontramos, em alguma medida, coletivizou o processo de perda da ritualidade da morte. Observamos, perplexos, conhecidos, parentes e amigos irem-se aos montes, sem que, ao menos, tenhamos a chance de dizer adeus.

A chacina de Jacarezinho e a “gestão” da pandemia no Brasil fazem parte de uma mesma dinâmica, tendo em vista que a elaboração social do luto foi interditada a tal ponto – no primeiro caso pelo racismo e, no segundo, pela mortalidade do novo coronavírus somada à negligência do poder público – que roubou à vida seu lugar como direito fundamental. Afinal, que valor esta pode ter, quando a morte não é digna de ser pranteada?

Em Além do princípio do prazer, leitura proposta pela psicanalista e professora Carolina Leão, Freud antecipa esse problema, ao compreender o estatuto do vivente como interpelação ética à coletividade, conferindo a cada um o direito de morrer à sua maneira e restituindo, com isso, a dimensão política da morte.

Em outras palavras, o que a intuição freudiana revela é que a naturalização de eventos como a chacina do Jacarezinho, assim como a do Curió ou a das Cajazeiras, por exemplo, constituem a matéria de que é feita a indiferença monstruosa de Bolsonaro e de seus asseclas diante do que pode ser considerado um genocídio programado de parte da população brasileira (em pouco tempo atingiremos a triste marca de 500 mil mortos).

Diante de tudo isso, o talento, a generosidade e o brilhantismo de figuras como Cassiano e Paulo Gustavo, cujas obras representam o que este país tem de melhor, são o que ainda me fazem acreditar na possibilidade de destruirmos esta casa erguida com o sangue e o trabalho de negros, índios, mulheres e pobres. Pois, assim como Clarice, “não é que eu queira o sublime, nem as coisas que foram se tornando as palavras que me fazem dormir tranquila, mistura de perdão, de caridade vaga, nós que nos refugiamos no abstrato. O que eu quero é muito mais áspero e muito mais difícil: quero o terreno”.

Neste terreno há de surgir outro Brasil. Do contrário, mais cedo ou mais tarde, todos nós pereceremos.

Leonardo Araújo é psicanalista e pesquisador em antropologia/sociologia. Está no Instagram.

Leonardo Araújo

Psicanalista, é mestre em comunicação e doutor em sociologia, com pesquisa em corpo, arte e política.