Bemdito

O Moloque-mercado vai devorar nossos filhos

O que Moloque, ídolo cananeu da Bíblia, e o mercado têm em comum na sanha pela multiplicação da riqueza privada que compromete as próximas gerações
POR Jamieson Simões

O que Moloque, ídolo cananeu da Bíblia, e o mercado têm em comum na sanha pela multiplicação da riqueza privada que compromete as próximas gerações

Jamieson Simões
jamrsimoes@gmail.com

Peguei uma mania ao assistir e ler os jornais e prestar atenção na antropomorfização. Essa característica de atribuir a objetos inanimados ações, sentimentos, emoções que são humanas. O vírus SARS Cov 19 não é mau, é natural e lá na natureza não causa dano algum, mas é representado demasiadamente humano ao ponto de servir como bode expiatório de todas as mortes na pandemia.

Outro uso muito comum é com relação ao mercado. Manchetes ou chamadas afirmam que o mercado ficou “nervoso” com determinado acontecimento político ou social. O mercado fica até “apreensivo” com acontecimentos e declarações, que, no caso do Brasil, são profundas e trágicas toda semana, e precisa ser acalmado, pacificado. Como um macho mimado, o mercado adquire o vulto de um ente terrível que, caso contrariado, pode trazer a miséria sobre toda a nação.

Isso me faz lembrar de um alguns episódios da narrativa bíblica (2Reis 23:10), onde a figura de Moloque é apresentada como um ídolo a quem se sacrificava os filhos para que houvesse prosperidade no território. Tratava-se de um ídolo cananeu. Era representado por uma estátua de bronze com as mãos e braços estendidos, aquecida com fogo. Quando as mãos estavam incandescentes, eram oferecidas as crianças vivas ou sob os braços ou postas numa cavidade no peito da estátua, onde queimavam para aplacar sua ira e garantir boa colheita, saúde e prosperidade.

O Moloque e o Mercado têm muito em comum. Mesmo pertencendo a tempos e sociedades tão distantes e distintas. Em ambos, há a fantasia da manipulação do “sagrado” pelos humanos, principalmente por sacerdotes e especialistas, entes inventados e antropomorfizados, a quem se atribui a abundância ou a miséria de uma nação, a exigência de sacrifícios e a oferta para que a “bênção da prosperidade” se efetive, acima de uma obediência aos rituais religiosos e/ou de ajuste econômico.

Se você chegou até aqui, pode estar se perguntando porque narrei e tracei esse paralelo, afinal, qual nação sacrificaria seus filhos para aplacar a ira de um ídolo? Não é verosímil. Pois deixa eu te contar. O Brasil, a maior nação cristã do mundo, sacrificou o futuro de seus filhos por 20 anos em nome de uma política de ajuste econômico que congela o investimento em saúde, educação e assistência social para que se possa pagar os juros da dívida pública. Em plena pandemia, com mais centenas de milhares de mortes, ainda há quem brade:

– Sacrifique a sua vida para salvar a economia de Porto Alegre!

A obediência a Moloque segue forte entre os cristãos. Se acha que sou radical, observe como se sacrifica ao deus-mercado o melhor de nosso maior tesouro para que as ações permaneçam enriquecendo os rentistas e o povo morra na miséria da fome e da ignominiosa pandemia. Gerações de crianças e adolescentes estão sendo imoladas no seu potencial criativo e inventivo, para que os donos de banco, os rentistas, multipliquem sua riqueza em plena pandemia. Se isso não é uma idolatria, não sei mais o que é.

Jamieson Simões é um corpo-negro no mundo com toda potência que isso implica. Está no Instagram.

Jamieson Simões

Pesquisador em juventude e violência, é assessor do Comitê Cearense de Prevenção à Violência da Assembleia Legislativa e mestrando em sociologia na UFC.