Bemdito

Um dia prometi que nunca mais iria escrever

Como a batalha com as palavras no processo criativo revela que não há escrita sem angústia, medo e sofrimento
POR Camille C. Branco

Como a batalha com as palavras no processo criativo revela que não há escrita sem angústia, medo e sofrimento

Camille Castelo Branco
camillecastelobranco@gmail.com

No dia em que prometi que nunca mais escreveria, senti que estava perdendo o amor da minha vida. Mais ou menos na mesma época, adquiri um hábito tão irritante quanto persistente, o de mentalizar repetidas vezes o trecho do poema One Art, de Elizabeth Bishop, no qual a poeta escreve “A arte de perder não é nenhum mistério. Tantas coisas contêm em si o acidente de perdê-las, que perder não é nada sério”. O inconsciente é uma coisa curiosa. Qualquer leitor que se dedicasse a reler por inteiro o poema de Bishop e não editá-lo conforme a própria conveniência, como eu fiz, não deixaria passar despercebido o extremo pesar com o qual ela inventariou cada uma de suas perdas. Bishop conduz o leitor em um exercício vão de autoconvencimento (muito semelhante ao que eu mesma me dedicaria no ano seguinte). Quando chegamos aos versos finais em que a poeta escreve “Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada”, já estamos cientes dos rasgos em seu coração. O mar profundo do meu pensamento, de seus recônditos, mandava o eco das palavras de Bishop como uma mensagem criptografada.

Antes de aprender a ler e escrever, eu desenhava sem parar. Até hoje desenho com alguma dignidade, considerando se tratar de uma diletante. Fui uma criança bonita, embora de aspecto peculiar: olhos grandes e redondos, cabelos muito pretos e cacheados, expressão séria e concentrada. Quando finalmente fui alfabetizada, foi como ser acometida por uma febre. Passei todos os anos seguintes preenchendo e empilhando cadernos com versos, trechos de histórias, pensamentos mais ou menos articulados, segredos e frivolidades. Na adolescência a prática assumiu compleição mais grave e passei a escrever também nas paredes do quarto. Adulta, meu temperamento infantil não sofreu alteração sensível. Continuei uma menina quieta, inclinada a obsessões, cabelos cacheados e revoltos, uma usuária devotada de roupas pretas. Continuei escrevendo.

Um dia, com vinte e poucos anos, decidi trazer a público um texto muito frio, muito prático, falando sobre como havia sido minha experiência lidando com depressão, um diagnóstico que ouvi da boca de um médico pela primeira vez com quatorze anos. O tom distante era calculado – me interessava fazer um debate público honesto sobre os tratamentos a que eu fora submetida, mas evitar a rubrica excessivamente sentimental que costuma atravessar esse tipo de relato. Algo desandou pelo caminho. Não sei se falhei em meu intuito de parecer impassível ou se o tema em si não concede esta benesse, mas o texto saiu do meu controle. Amigos me mandaram áudios e mensagens chorando, consternados; desconhecidos passaram a me enviar confissões íntimas; a universidade onde estudo me pediu para falar sobre o assunto em um evento para psicólogos e psiquiatras. Cada segundo desta atenção pública foi excruciante para a minha personalidade introspectiva e retraída. Passei a associar a escrita com disrupção, cansaço, constrangimento. E jurei que nunca mais escreveria.

Foi um ano de silêncio e de ausência. Me dediquei com fervor absoluto para outras atividades, como dar aulas, assistir filmes, estudar material radicalmente acadêmico, me apaixonar, estar presente em mais momentos com meus amigos. Evitei a escrita com o talento manipulativo de um mestre de cordas. Não falava do assunto nem para a analista. Quando alguém me abordava de forma entusiasmada e extravagante, mencionando meus textos e me comparando com escritoras muito mais talentosas que eu, agradecia e desconversava. Li pouquíssima literatura, porque ler sempre me impulsionava em direção à escrita. E, a cada vez que observava a poeira se acumulando nas superfícies dos meus cadernos, repetia para mim mesma, com disciplina militar: “a arte de perder não é nenhum mistério”. Com a prática, você aprende como estrangular melhor seu próprio coração.

Em Cartas a um jovem poeta, Rilke afirma que a pergunta mais importante a ser respondida por qualquer escritor é: “morreria se lhe fosse vedado escrever?”. Minha resposta, quando li esta pergunta pela primeira vez foi um “sim” em abstrato. Depois de um ano em que proibi a mim mesma de escrever qualquer palavra, meu “sim” parece bastante material. Foi um ano em que me senti como se tivesse me retirado da vida. É esse o efeito de tentar reprimir o próprio desejo, tentando matar a angústia que ele provoca. Parece que você morreu.

Em um dia qualquer, já em tempos pandêmicos, uma amiga me presenteou com um caderno de capa azul celeste, comprido, pautado. Foi sem aviso, mas certamente com intenção. Segurei a embalagem de papelão que o envolvia e, também sem aviso, mas com intenção, apoiei as costas no espelho da cama, apanhei uma caneta de má qualidade e estendi o caderno aberto sobre minhas coxas. Perdi a contagem das horas, mas ao final, em um torpor um pouco hipnótico, havia preenchido quase todas as páginas com tinta azul. Quando parei de escrever, me vieram lágrimas com caráter próprio dos reencontros – saudades, surpresa, espanto, urgência se misturavam em uma massa emocional amorfa. A arte de perder é um grande mistério.

Em sua coletânea de poemas dedicados à Sylvia Plath, o controverso Ted Hughes compõe alguns versos dizendo que gostaria de ter convencido a ex-esposa de que escrever aqueles incêndios em forma de palavras não iria arrancar dela seus filhos, sua casa, sua existência. Hughes afirma que, diante do ofício de escrever, Plath parecia uma fanática religiosa e que ele precisou assistir, impotente, ela ser consumida por sua poética: “[…] sentado, olhos ardidos,/ Vendo tudo ser devorado/ Pelas chamas do seu sacrifício/ Até que elas chegaram a você,/ Fazendo-a sumir, explodindo/ Nas chamas/ Da história do seu Deus”. Goste-se ou não da persona de Hughes, o fato é que sua tentativa de convencer Plath ecoa com minha tentativa de convencer a mim mesma de que escrever não vai me tirar nada. Se eu não tivesse desistido de desistir, não estaria estendendo estas palavras agora, no vazio da página, para uma plataforma com mais de seis mil leitores.

Talvez a escrita não seja, exatamente, aquilo que eu devo aprender a perder. Talvez mais importante seja perder o medo de, com as palavras, tocar em temas sobre os quais ninguém gosta muito de falar, porque ferem suscetibilidades. Perder a ilusão de que é possível controlar a mim e, por conseguinte, a minha linguagem, pois nenhuma batalha é mais conhecidamente perdida do que a batalha com as palavras. Começamos a escrever declarando derrota. Quando criança, aprendi a cadenciar as letras como quem toca um tambor, para reanimar um corpo morto. Quando adulta, prometi que nunca mais realizaria esse tipo de ritual. Eu quebrei a promessa. Talvez, com este gesto, tenha salvado a criança que fui. E a adulta que posso vir a ser.

Camille C. Branco é antropóloga, pesquisadora e pode ser encontrada no Instagram.

Camille C. Branco

Antropóloga, doutoranda pela UFPA, desenvolve pesquisa sobre mobilização social na Amazônia, feminismos, corporalidades políticas e violência.