Bemdito

Uma fazenda na África

Um filme sobre o amor que se vive apesar da certeza da efemeridade
POR Olivia B. de Avelar

“Eu tinha uma fazenda na África, no sopé das colinas Ngong. Aqui estou, onde deveria estar. Você sabe que está realmente vivo quando está vivendo entre leões.”

Essa é uma passagem do livro “A Fazenda Africana” lançado em 1937 e assinado por Isak Dinesen. Sucesso instantâneo, as palavras de admiração e declaração de amor às cores e à natureza exuberante contavam a história de vida de uma mulher audaciosa que comandou uma plantação de café no Quênia, por volta dos anos de 1914. Dinesen era um pseudônimo e a história era real. Anos mais tarde, o livro começaria a ser publicado com o nome de sua verdadeira autora, a mulher que viveu tudo o que está escrito nas páginas dessa história: Karen Blixen tinha uma fazenda na África.

Uma dinamarquesa que construiu uma plantação cafeeira aos pés das colinas Ngong. Que caçou leões e que seguiu seu próprio coração indômito ao amar o homem que, por muitas noites, sentava-se perto do fogo e lhe pedia que contasse mais uma de suas fascinantes histórias. Karen, que na juventude sonhava em ser pintora, criava seus quadros com as palavras e, enquanto entretinha, elevava a imaginação e a admiração de tantos homens e mulheres que frequentavam as varandas, salas e bibliotecas da grande casa onde ela viveu e amou, nos arredores da Nairóbi do início de século 20, ainda sob o domínio Inglês.

O filme Out of Africa – Entre Dois Amores em tradução brasileira – foi lançado em 1985, em comemoração ao centenário de nascimento da autora. São pouquíssimos os filmes românticos que me encantam – não porque me considero inalcançável para as histórias de amor – mas, antes, porque contar algo que é, ao mesmo tempo, tão íntimo e tão universal, é uma tarefa que requer delicadeza e experiência.

É preciso saber tocar a verdade de todos nós, que já amamos: queremos nos reconhecer nas mais curtas frases, nas motivações altruístas ou mesquinhas, na vergonha e na humilhação das mentiras veladas e na certeza desoladora das verdades perdidas. Ninguém ama igual. E, também já foi escrito, muitas vezes, que um mesmo amor não acontece duas vezes. Irrepetível e universal. Um filme romântico nunca contará a nossa própria história, mas o que buscamos encontrar – em cada um deles – é a confirmação inequívoca de que, sim, foi amor o que experimentamos em nossa pele e nos nossos poros abertos.

As paisagens africanas arrebataram Karen e a receberam em toda a sua opulência, mistério, dominação classicista e sabedoria tribal. O contraste entre a porcelana elegante em suas mãos e os pés escalavrados e descalços de seus trabalhadores nativos: ela deslizava entre ambos os extremos e cuidava de homens, mulheres e crianças doentes da tribo dos Kikuyus com a mesma elegância e altivez que desdenhava dos administradores ingleses, daqueles que davam banquetes e que calçavam luvas brancas e incômodas para o corpo e para o orgulho das mãos pretas que os serviam.

O gramofone instalado ao ar livre, tocando Mozart enquanto Karen e Denys observavam os leões que devoravam sua presa. Denys, o caçador e aviador e aventureiro indomável, que amou Karen e que foi amado de volta. Era em sua companhia que Karen sobrevoava os rios, vales e montanhas, sentindo-se íntima das aves coloridas, prestando reverência e honrando a vida selvagem que a animava à bordo do recém inventado e moderno avião inglês Gipsy Moth.

A elegância de seus gestos e a riqueza de suas posses não a afastavam da natureza e da força plástica que ela encontrava em cada curva de vale e em cada folha dos pés de café. Sua majestosa biblioteca e seu potente rifle de caça eram instrumentos que ela tocava com a mesma maestria e profundidade: Karen sabia que nada do que ela soubesse ou pudesse comprar a protegeria da força trágica e impiedosa que rege a vida e a natureza crua e selvagem. Era com Denys que ela se sentava, entre cestas feitas à mão, guardanapos de linho, delicadas refeições e taças de vidro colorido, para piqueniques sobre a relva que cobria o local exato onde escolheram para serem enterrados: o sopé das colinas de Ngong seria o túmulo que abraçaria com a terra amada seus corpos e suas almas indomáveis. 

Todas as vezes que assisto essas cenas, me pergunto: será que Karen realmente existiu? Será que ela se lançava a viver aquilo que seria digno de, anos mais tarde, ir parar nas páginas de seus próprios livros? Ou será que, de tão fantástica a sua história, Karen é, na verdade, uma personagem – entre as muitas condessas e odaliscas e chineses e espiões embarcando em aviões – que saltou do seu livro e exigiu ter uma vida própria? Uma metonímia de si: Karen viveu uma vida absurdamente digna de ser contada e, não bastasse, foi ela mesma quem segurou a pena e transcreveu sua história.

Podemos ler Karen no cinema, nos seus livros, nas pedras da savana africana, no vôo vespertino dos pássaros, nas sinuosas curvas dos rios, na pelagem dourada dos leões que não cedem seu espaço e encaram seus caçadores com altivez e desdém.Difícil saber quem admiro mais: a mulher real, cuja pele se queimou sob o sol africano durante a colheita do café e que se iluminou sob a luz da lua, dançando e segurando uma taça de champanhe em noites de gala ao som dos animais tão selvagens e tão próximos; ou a personagem que ela criou de si – aquela que sobreviveu à sua própria morte e que se fez história.

Que se fez histórica. E que sobrevoa, ainda hoje e agora, os rios caudalosos do Quênia, feito ave que vigia e que zela. Que ainda planta café e escreve histórias magníficas com as mesmas mãos. Que amou imensamente um país estrangeiro como se fosse seu, um homem com quem nunca se casou e a si mesma e sua própria jornada ao ponto de se eternizar como a heroína máxima de sua admirável vida. Esse é o meu filme romântico preferido – porque amo o que ele afirma: vão-se as posses, nos despedimos das paisagens, as pessoas morrem, os anos se esvaem.

E o amor: um instante de deslumbramento, como o sol escaldante que se enterra no chão e, em poucos minutos, nos deixa no escuro. No escuro com a certeza da mais clara e abrasadora luz. E é com essa certeza escaldante que podemos nos permitir, silenciosa e timidamente, sentir o eco das palavras de Denys e da vida de Karen: “e o que exatamente é seu? Não somos donos aqui Karen, estamos apenas de passagem.”

Olivia B. de Avelar

Professora, escritora e apaixonada por cinema, é formada em Letras e pós-graduada em Filosofia.