Bemdito

Domingos brilham como ocasiões especiais

Excepcionalidade dos acontecimentos é estar vivo para ver o brilho de se endomingar em meio aos ritos cotidianos
POR Alice Dote

Excepcionalidade dos acontecimentos é estar vivo para ver o brilho de se endomingar em meio aos ritos cotidianos

Alice Dote
alicedote@gmail.com

Segundo domingo de maio. Às sete e meia, os paetês já refletiam o céu azul, claro e sem nuvens, no estacionamento do mercantil. Atraindo o sol da manhã, espalhavam-no em uma dança de pequenos pontos luminosos nas superfícies próximas. Pareciam ansiosos em brilhar, agora que respiravam fora da embalagem que os abrigou durante meses – dela, deram apenas uma rápida escapada, logo quando chegaram em sua nova morada. Apenas o tempo necessário para conhecer o corpo a que agora pertenciam.

Por acaso, li que o brilho nos exerce forte atração porque o associamos às superfícies aquáticas, sendo a água um recurso vital. Não fui além dessa vaga explicação, nem sei até que ponto – cientificamente – ela confere, mas tomarei esse como um dos motivos para que peças como essa saia de paetês me pareçam tão preciosas. Não, tal valor que assumem para mim não se deve ao alto preço ou à raridade — essa peça, aliás, foi vasculhada nas ofertas do site de uma loja de departamentos. Custou algo como uma pizza com taxa de entrega. Quanto ao paetê, o que nele ainda me acende parece ser a coisa — aquele efeito a mim inefável — das extensões reluzentes.

Foi justo esse ar de preciosidade que envolvia a peça que a condenou ao confinamento no invólucro plástico. Percebo agora como isso é contraditório: estimo tanto algo, considero-o tão belo, tanto me agrada aquela nota de preciosidade que só a mim se revela, que, para protegê-lo, escondo-o, interdito o prazer de ser usado. De agir e expandir o que nele me agrada. Acho que agora não falo mais (ou somente) de coisas.

Mas a saia de paetês pacientemente esperou para, enfim, vestir-me. O dia das mães me pareceu uma ocasião especial o suficiente para ela. Os mesmos dois quilômetros de sempre entre um apartamento e outro, com uma passadinha, também costumeira, no mercantil que fica bem no meio do caminho em linha reta. Pão carioquinha, queijo e presunto na cesta.

Dali a pouco, estaríamos à mesa na varanda do apartamento de meus pais, também a mesma de sempre. Mas, dessa vez, para ela deslocaríamos a garrafa de café, xícaras, pratos e talheres, que não costumam sair da mesa da cozinha pela manhã. Haveria bolo de cenoura com chocolate, morangos e geleia, além de um molho pesto que eu mesma havia preparado na noite de sábado, após desfolhar, folha por folha, a quatro mãos, um maço de manjericão. Sim, uma ocasião especial o suficiente para a saia de paetês.

Endomingar. Foi em outro domingo, o passado, que descobri a palavra. Topei com ela inesperadamente, ao me surgir a impressão de “estar meio endomingada”. Não sei bem como uma palavra que desconhecemos nos aparece assim, à vontade, com a naturalidade daquelas que já se sentem tão acomodadas em nosso vocabulário que se lançam a dizer de nós sem as convocarmos.

Queria dizer daquela preguiça boa de uma manhã de domingo. Da tranquilidade, cada vez mais difícil de deixar chegar, de ver o relógio já marcar dez horas sem que nada de produtivo as tenha ocupado. Pensei estar endomingada como a cachorra, displicente e merecidamente largada na faixa de sol ao chão da sala, olhos apenas parcialmente acordados, deixando o dia escorrer. Fui atrás de descobrir se a palavra, que revelou já existir em meu vocabulário, estava no dicionário. A palavra me enganou. E depois me acendeu ao me fazer descobri-la pela segunda vez em cinco minutos.

Endomingar. Vestir alguém ou vestir-se com sua melhor roupa, a roupa de domingo. Estar endomingada, portanto, consistiria em sentir e assumir aquela sensação inconfundível de trajar-se com as suas melhores vestes: aquelas guardadas para as “ocasiões especiais”. Aparentemente, se o ano fixa no calendário datas que nos animam um preparo especial no vestir, os domingos parecem guardar o que pode haver de singular e infrequente — ou singular, pois infrequente —, semana após semana.

O que conta Peter Stalybrass, em O casaco de Marx, sobre o intenso movimento de peças de roupa, nas casas de penhores londrinas no século XIX — como o próprio sobretudo de Karl Marx, que dá título à obra —, revela como eram preciosos esses pertences:

“O padrão usual do comércio de penhores […] consistia em que os salários recebidos na sexta ou no sábado eram usados para recuperar as melhores roupas da loja de penhores. As roupas eram vestidas no domingo e então penhoradas, outra vez, na segunda-feira (um dia no qual as lojas de penhores recebiam três vezes mais penhores que em qualquer outro dia).”

Talvez seja a nós, atualmente, difícil compreender que eram as roupas — e não as joias, por exemplo — os bens mais frequentemente penhorados. E eram os melhores trajes de muitas famílias os constrangidos ao recolhimento nas lojas de penhores durante boa parte do ano, à espera de serem resgatados para os passeios de domingo ou para as festividades importantes.

Se, nos armários e nas gavetas de muitos de nós, as nossas roupas “de sair” — a expressão, tenho certeza, será familiar também a muitos — ficaram trancafiadas durante o último ano, reclusão ainda mais forte viveram aquelas destinadas às “ocasiões especiais”. Desconfio terem até perdido a esperança de vestirem um corpo novamente.

Por aqui, já nem sei mais o que definiria a excepcionalidade de um acontecimento, se todos eles têm dividido o mesmo espaço. Escolher frutas no mercantil, subir à sala de um prédio comercial onde passo a maior parte do tempo sozinha, visitar meus pais na casa que ainda chamo minha, escapar para um rápido sorvete programado durante toda a semana: isso é o que tem acontecido de mais especial em minhas semanas (junto à pizza de chocolate, de pijama na cama, e à leitura de pijama na rede). Ou, simplesmente, me arrumar — o gesto, em si, já tem sido algo de especial. Para o quê? Para onde? Para ir viver. Aqui mesmo.

A ocasião especial, na verdade, é que eu estou aqui. 

E isso me parece motivo incontestável para endomingar-se — aos domingos, mas também e, talvez, especialmente, nas segundas-feiras. 

Alice Dote é mestre em sociologia e artista visual. Está no Instagram.

Alice Dote

Pesquisadora e artista visual, é mestre em Sociologia e co-criadora do coletivo Narrativas Possíveis, com pesquisa e atuação em cidade, imagem e artes urbanas.