Bemdito

Escrita política em tempos de polarização

Reflexões sobre o desafio de elaborar em palavras o caos de nossa política
POR Monalisa Soares
Apoiador de Bolsonaro participa de carreata em Brasília ( Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Há seis meses escrevo semanalmente neste espaço sobre política, um tema para o qual há tanta informação em disputa e que suscita, atualmente, ainda mais afetos e tensões. Além disso, escrever no “calor do momento” impõe certa dose de risco não apenas pelo caráter volúvel da conjuntura, mas também pelos afetos do(a) analista e da audiência face aos acontecimentos políticos. É sobre isso que quero tratar neste texto de hoje.

Depois de abordar tantos temas e eventos, compartilho com vocês reflexões sobre o processo de escrita da política. Esta poderia ter sido a coluna de estreia, como uma anunciação do porvir, mas chega agora como uma espécie de balanço de nossas inserções, sobretudo, acerca do tipo de texto aqui apresentado na tradição da análise de conjuntura, reunindo evidências do processo político em curso.

Em tempos como os que vivemos, caóticos e por vezes desoladores, a tarefa da análise política tem sido cada vez mais difícil… A tentação de aprofundar visões dicotômicas ou afetivas pouco tem contribuído para aproximações analíticas da realidade política. Uma querida amiga, excelente analista, sempre diz em nossas conversas: “na ciência política, o desafio é não confundir desejo com análise”.

Como analistas, obviamente, somos sujeitos desse mundo político, imersos em sua dinâmica valorativa e tendo preferências. No entanto, mais do que apresentar opiniões, o que motiva a escrita é partilhar análises e interpretações sobre práticas políticas; é chamar atenção para problemas políticos a serem desvendados.

A intenção é que, mesmo que os(as) leitores(as) possuam preferências definidas, possam, ao ler o texto, reconhecer o cenário de um modo mais geral: os diversos atores, suas forças políticas, margens de ação e tendências. Esta é, talvez, uma idealização como analista que escreve sobre política. 

Nesse sentido, chamo atenção para esse esforço de escrita que busca se aproximar de um mapa, de onde emerge a decomposição da conjuntura em torno dos movimentos dos atores políticos. Assim, busca mirar além do ponto de referência pessoal e, quando possível, além de uma perspectiva comum e já consolidada sobre o fenômeno observado.

Entendo que, num contexto de tensão entre preferências políticas, tal o que vivemos, estas escolhas podem ser entendidas como uma busca por isenção ou por não comprometimento. Esses são dilemas que nós cientistas sociais enfrentamos no exercício da escrita e que se revestem de novas camadas quando o fenômeno analisado é a conjuntura política.

Numa perspectiva analítica, explicito tais opções como a busca por identificar tendências e campos de possibilidades. Desse modo, esta coluna pode ser entendida como um caminho no qual vou deixando pequenas migalhas. Caso ocorra algo muito dissonante no futuro, é possível retornar pela trilha e observar o que há de fortuito no evento.

Penso, no entanto, que o maior desafio é sobre como o que escrevemos “encerra desejos, exortações, censuras, ordens etc.”, para usar as palavras de Pierre Bourdieu. Para o sociólogo francês, nosso dilema ao escrever sobre o mundo social passa necessariamente pela forma como o texto é recebido. Pois, ainda que busquemos ser constativos, produzindo interpretações da realidade passíveis de verificação, as palavras tendem a ser recebidas como performativas. Segundo Bourdieu, quando o(a) sociólogo(a) diz “que algo na vida social é assim, a tendência é que escutemos e é bom que seja”. E dessa forma, análises políticas podem ser percebidas como opiniões.

Os contextos polarizados aprofundam tal percepção, empurrando ainda mais nossas análises para o campo da parcialidade típico da disputa política. Na tentativa de fugir de mal-entendidos, importa a busca por dosar cargas na escolha dos termos, para retirar o texto desse terreno minado.

Tais movimentos não se orientam, no entanto, por uma pretensão de conversão. Os textos constituem convites ao exercício do realismo político, a mim e aos leitores(as). Assim, considero que podemos tornar mais inteligíveis e suportáveis os desafios políticos do nosso tempo.  

A vocês, que têm aceitado o convite para o diálogo, meu mais sincero agradecimento.

Monalisa Soares

Doutora em Sociologia e professora da UFC, integra o Laboratório de Estudos sobre Política, Eleições e Mídia e se dedica a pesquisas na interface da comunicação política, com foco em campanhas eleitorais, gênero e análise conjuntura.