Bemdito

Ô saudade de viajar!

Uma crônica sobre a saudade de ir para longe e caminhar sem medo e sem destino
POR Rafael Caneca

Em tempos de pandemia, gostamos de lembrar quando era mais fácil viajar. Um tempo em que o número de desempregados não aumentava e em que os salários nos permitiam alguns passeios. Quando o mundo admirava os brasileiros, quando o 7×1 não era diário. E, nas viagens, sempre surgem causos interessantes.

Eu já havia feito algumas viagens de final de semana pelo Brasil; mas a primeira saída para o exterior teve um sabor mais do que especial: era um mochilão por treze países diferentes na Europa, com Madrid como primeiro destino para encontrar aquela que me atura até hoje, de quem eu estava distante há quase seis meses. 

Guardo todas as cenas da capital espanhola na minha cabeça: o reencontro em Barajas (depois de horas de ansiedade, mais agravadas ainda pelos voos perdidos em Lisboa); o transporte de malas pelo metrô; a caminhada interminável procurando o albergue; o elevador retrô digno de um filme de terror; o quarto singelo que, pelo contexto, foi elevado à categoria de cinco estrelas… Os beijos e abraços com aquele gosto de matar a saudade. Os pontos turísticos: Plaza Mayor, Palacio Real, Plaza de Cibeles, Puerta del Sol, Museo del Prado… Sem esquecer também a gastronomia espanhola que o bolso de um mochileiro pode suportar: kebabs e fastfoods.

Mas o que mais me impressionou, à época, foi a liberdade que tínhamos para caminhar nas ruas. Nem tanto eu, mas a minha jovem namorada andava tranquilamente, como se estivesse no quintal de casa e sem medo de ser abordada por terceiros mal intencionados. Ah, a falsa sensação de liberdade que só o turista tem…

Em uma viagem, com o perdão do clichê, a gente se sente livre, leve e solto. Em mim, essa sensação se expressa em uma vontade líquida: um copo de cerveja no meio da rua, enquanto passeio sem rumo.

Não necessariamente um copo; pode ser uma caneca de chope ou uma garrafa. A única condição é que ela seja sorvida enquanto eu caminho pelas ruas, como se nada possa me deter. Em Madrid, então, a cada passo dado, a vontade de uma geladinha crescia mais e mais, naquele calor europeu. Até o ponto de virar desejo.

Ela, percebendo minha busca, do alto da sua experiência de quase seis meses naquele habitat, decidiu me alertar:

– Amor, tem canto aqui que é proibido beber no meio da rua.

Anotei mentalmente a recomendação e fui a uma mercearia. Chamei o vendedor e, no meu portunhol na sala de aula, pedi:

– Hola. Cerveza?

Enquanto ele me passava a garrafa e o preço, me lembrei de dar ouvidos ao alerta recebido minutos antes. Afinal, não queria, no primeiro dia, ter complicações legais no estrangeiro.

– Señor… Puedo beber enquanto caminho?

A cara de surpresa do vendedor, como se aquela fosse a pergunta mais absurda que ele já ouvira, me deu o estímulo que faltava para eu pegar minha camisa e abrir, com uma rápida torção da mão, a garrafa. Antes mesmo de o som do gás escapando da garrafa terminar, ele deu o arremate:

– Sí, claro que puede tomar. Basta que la Policia no descubra.

Ô saudade de viajar!

Rafael Caneca

Formado em Direito, servidor público, escritor e idealizador do clube de assinatura de livros Pacote de Textos.