Bemdito

Coca-Cola e rum

Em Cuba, a população saiu às ruas para protestar contra o governo e a favor da liberdade
POR Simone Mayara
Foto: Oscar Gonzalez/NurPhoto via Getty Images

Desde o último domingo, dia 11 de julho, movimentos populares convocados principalmente pelas redes sociais tomaram as ruas de algumas cidades cubanas, em especial a capital Havana, e foram reprimidos duramente pela polícia. Nos vídeos, é possível ver os pedidos das pessoas por liberdade e ainda muito tumulto. Alguns meios de comunicação fizeram uma ligação direta entre a forma como os protestos foram organizados e o acontecido no Oriente Médio há alguns anos. Seria, então, a “primavera cubana”.

O movimento visto na última semana é o maior desde 1994, quando houve o Maleconazo. Uma grave crise econômica atingiu a Ilha depois da queda da União Soviética, sua principal mantenedora, somada ao embargo econômico dos Estados Unidos. Desde a revolução em 1959, havia fuga da Ilha, sobretudo em razão das perseguições políticas, mas o número aumentou muito nessa época. Começou a aumentar o número de pessoas que roubavam barcos ou material para construir botes e fugir da Ilha. Com as medidas para impedir isso, a revolta explodiu.

Pela distância geográfica, muitos arriscaram – e muitos perderam – a vida em botes para chegar à costa dos Estados Unidos. Cenas terríveis e tristes como vemos hoje entre o norte da África e Europa, por exemplo. O autoritarismo causa desespero onde quer que aconteça, ainda que os fatores sejam distintos, a raiz é a tirania, e o efeito é o desespero.

Em 2021, um dos grandes nomes do regime venezuelano afirma que as imagens do povo cubano na rua eram apenas alguns comemorando a Copa América e a Eurocopa, que tiveram suas partidas finais nesse final de semana. Toda essa narrativa de protestos é coisa da mídia. Outros preferem culpar novamente o embargo e afirmam que o povo vai às ruas por comida e remédios. Nada de pedir por liberdade. Seguem felizes com os meios de produção estatizados e as filas para conseguir comida e remédios. Liberdade de iniciativa traria a desigualdade. Ainda bem, temos o Pai Estado, personalizado na imagem do Comandante, para nos abastecer e guiar.

Um fator que faz essa revolta ser diferente de 1994 é que, nos primeiros dias, houve transmissão ao vivo e divulgação do que acontecia, e ali foi possível burlar o discurso oficial: as pessoas pediam, sim, por liberdade. A Internet foi uma novidade no final dos anos 1990 em Cuba e, inicialmente, estava disponível para os membros do governo e em lan houses do governo. Em 2017, a estatal cubana começou a fazer testes para que a Internet chegasse a lares e tivesse banda larga. Finalmente, o poder centralizado decidiu que era adequado. Gracias, mi comandante.

Com o acesso à Internet, ainda que extremamente controlada (em Cuba, como na China, não é possível ter acesso a todos os sites nem aos fatos históricos, como, por exemplo, o Massacre da Praça da Paz Celestial), a juventude conseguiu utilizar as redes para se comunicar e se organizar. A verdadeira resistência. A grave situação do país ensejou então que organizassem os protestos que ocorrem desde domingo. Em pouco tempo, assim como na Primavera Árabe, a Internet começou a ser cerceada e controlada, mas ainda assim as pessoas vão às ruas e em tempos de pandemia. Quando um governo é pior que o vírus, as pessoas se arriscam, não é mesmo?

Algumas questões surgem, no entanto, quando mesmo nas justificativas oficiais do governo surge o embargo como culpado.

Qual a relação do embargo com a prisão de quem fala em público contra o regime? Se o embargo começou 2 anos após a revolução e tomada do poder na ilha por Castro e Guevara, qual seu papel no fuzilamento de intelectuais contrários à revolução e na deportação de homossexuais que ocorreram antes de iniciar? Para proteger contra o capitalismo terrível, o governo garante que ele tem que ter os meios de produção, assim não haverá desigualdade. Mas o ditador revolucionário tem fortuna na Forbes. Qual o papel do embargo nisso?

A maior preocupação, contudo, surge quando aqui mesmo, longe da Ilha de Cuba e na Terra de Vera Cruz, defensores da democracia adicionam ao seus discursos um grande e sonoro “MAS”. Para quem acompanha política, a conjunção adversativa não é novidade, mas ficou mais explícita agora, diante de imagens da população sofrendo violência na rua e dos meios de comunicação sendo cortados, das pessoas presas sem o devido processo legal e inclusive – até o momento em que escrevo – uma morte. Dizem ser contra o autoritarismo, MAS se for pra resolver quem fala contra a revolução, pode. Democracia relativizada em nome do bem maior é discurso antigo de quem diz se opor à ditadura – pior ainda se for militar. Mas, dependendo de quem seja o tirano, pode até ajudar a lustrar os coturnos.

Simone Mayara

Analista política, é especialista em Direito Internacional e mestranda em Direito Constitucional e Teoria Política. Atualmente é analista política no Instituto Livre Mercado.