Bemdito

É essa mulher que eu quero ser?

O que a obra "A mística feminina" ensina sobre crise, desassossego e necessidade de realização
POR Juliana Diniz
Foto: Hosein Zanbori

O livro A mística feminina, considerado por muitos anos o clássico inaugural da segunda onda do feminismo nos Estados Unidos, foi publicado em 1963 e hoje permanece quase que inteiramente à margem do debate feminista. No ensaio, Betty Friedan tematiza o tédio e a frustração das mulheres confinadas ao espaço doméstico, as esposas protegidas por maridos provedores e seduzidas pelo ideal da feminilidade mistificada.

A leitura contemporânea da obra da americana tem se dedicado a expor a miopia social de sua autora e sua insensibilidade à diversidade das experiências femininas. Em seu ensaio Mulheres negras: moldando a teoria feminista, bell hooks detalha essa crítica, ao afirmar que “Friedan transformou suas dificuldades e as de mulheres brancas como ela em sinônimo de uma condição que afetaria todas as mulheres nos Estados Unidos”.

Para hooks, Friedan tratou como problema universal feminino um conjunto de questões vivenciadas pelas mulheres brancas de classe média, bem educadas e inseridas no contexto de uma família tradicional. Afinal, os dramas psicológicos e existenciais das esposas e mães dos subúrbios idílicos que a propaganda americana do período cristalizou tão bem não seriam os mesmos dramas de todas as mulheres, especialmente das mulheres negras e periféricas que há séculos vivenciam com imensa dificuldade a exploração de seu trabalho.

bell hooks tem razão em suas críticas, mas eu gostaria de propor um olhar mais complacente com as linhas de A mística feminina. Sem esquecer a importância da contribuição do feminismo negro para percepção das limitações do diagnóstico proposto por Friedan, é possível recuperar, criticamente, alguns insights inspirados que a obra deixou para abordar um dilema que angustia a todas nós, ainda que nem sempre da mesma forma.

Eu me refiro à pergunta mais básica que uma mulher pode se fazer e se refazer na construção de sua trajetória: “é isso mesmo que eu quero ser?”.

Tal questionamento estrutura o âmago de uma crise existencial – a crise da definição da identidade que nos permite orientar nossa ação e nossa vida. Aquele momento em que a consciência é chamada a responder a questionamentos incômodos e definir uma subjetividade. Quem eu sou? Qual é o meu propósito? Em que devo engajar minha energia? 

Ainda que a resposta a essas perguntas possam se referir a projetos coletivos e socialmente abrangentes, há uma dimensão estritamente íntima que nos perpassa. Uma necessidade primordial de autoafirmação que é condição de qualquer luta política. É esse ponto obscuro que A mística feminina aborda, da insatisfação pessoal vivida a portas fechadas.

Friedan é precisa ao indicar que muito do sofrimento mental e do esgotamento nervoso experimentado pelas mulheres de sua geração (e também da minha) se devem a um problema na definição de sua identidade. A uma crise existencial que, por sua dimensão geracional, alcança muitas mulheres ao mesmo tempo.

Embora tenha focado nos obstáculos e nas limitações vividas por um certo grupo de mulheres, as mães e esposas brancas de classe média, é possível dizer que, cada vez mais confrontadas com a necessidade de se afirmar, as mulheres herdeiras das conquistas feministas vivenciam a dificuldade de encarar a si mesmas no reflexo do espelho e ver uma imagem clara e nítidas de quem são, seja como indivíduos, seja como parte de um corpo coletivo.

Para a americana, as crises de amadurecimento, que levam a uma espécie de renascimento, a uma consciência mais aguçada sobre as nossas vidas, podem acontecer em graus diferentes em pessoas, classes e períodos históricos. São crises que, há séculos, são consideradas como parte do processo esperado de crescimento e amadurecimento masculino, mas só recentemente passaram a ser tematizadas pela psicologia, pela filosofia e pela sociologia como um processo também próprio da formação da psique feminina.

Se pensarmos nos gatilhos sociais mais frequentes, as crises se revelam com força em momentos de grande instabilidade ideológica, de maior confronto e estresse, como uma pandemia, um governo autoritário, quando somos quase que forçados a compreender em que ponto estamos e de que modo gostaríamos de conduzir as nossas vidas. É graças a essa conjuntura confusa que temos vivenciado tantas crises existenciais individuais ao mesmo tempo – como se atravessássemos, cada qual a seu modo, um período sombrio, de incertezas e questionamentos. “Seja gentil, quase ninguém está bem”, é a mensagem que sintetiza essa ideia. 

Um Zeitgeist infeliz.

Entre a adequação ao modelo e a transcendência

Betty Friedan propõe que o desconforto difuso, a apatia e a insegurança, que, por vezes, sugam a nossa energia, se devem ao fato de que, embora nós mulheres estejamos mergulhadas até o pescoço na experiência dessa crise sobre a existência, dificilmente temos clareza sobre as razões do desassossego. Como se nos faltasse a percepção da identidade a ser desejada, uma imagem pública que nos ajude “a crescer como uma mulher fiel a si mesma”.

Afinal, esta que sou é quem eu quero ser? E quem eu quero ser? Num universo cada vez mais fragmentado de identidades e ideais de vida em disputa, nunca foi tão angustiante responder a essas perguntas, especialmente para as mulheres que desejam partir da negação dos papeis tradicionais associados à feminilidade.

Para enfrentar o sentido da crise, os capítulos mais especialmente frutíferos em A mística feminina são dois: a crise na identidade da mulher e o self perdido (o terceiro e o décimo terceiro). Nesses pontos, Friedan esclarece que parte do processo de crescimento individual e emancipação passa pela capacidade de alguém usar a própria mente para, assim, desempenhar seu papel no mundo. Uma reflexão que não se aplica exclusivamente às mulheres.

Todo indivíduo precisaria encontrar “uma base sobre a qual construir” a percepção de si e de sua ação no mundo, um meio que o leve a crescer e realizar o seu potencial. “A coragem de ser um indivíduo”, no sentido mais forte que essa palavra tem: a capacidade de determinar a si mesmo e de julgar moralmente. 

Quando somos privadas da nossa capacidade de refletir sobre nossa condição, diz Friedan, quando nos confinamos num lugar de segurança e calmaria que nos impede de viver a incerteza, caímos numa espécie de “desespero submerso”, um lugar em que um intenso ressentimento provocado pela castração de nossas potencialidades acaba por nos levar à autodestruição. É quando perdemos a dimensão do futuro, a nossa capacidade única de transcender o presente.

Nessa reflexão propriamente existencialista, encontramos o diálogo entre Friedan e as linhas de Simone de Beauvoir, que lhe antecederam em pelo menos duas décadas. Amigas em vida, as duas eram também herdeiras de um mesmo panorama de reflexão sobre o mundo.

Friedan me diz então para ser mais generosa e complacente com meu ego em crise. Que me cuide, que invista no que conhecemos como autoestima. O autocuidado é, afinal, um primeiro passo importante para qualquer perspectiva emancipatória ou transformadora – e não há nada de individualismo narcisista nisso, como a feminista americana é muitas vezes acusada de ser.

Sem autoestima consolidada, somos abandonadas ao domínio de sentimentos neutralizantes, como a sensação de inferioridade, fraqueza e desamparo. Perdemos o vigor e a energia para exercitar nosso desejo de força, realização, competência; a confiança para encarar o mundo e ser livre. Não conseguimos encontrar meios de escapar do lugar seguro para nos aventurar em perspectivas existenciais mais ousadas.

Se as necessidades das mulheres sobre identidade, autoestima, realização e, finalmente, expressão da sua individualidade humana única não são reconhecidas por ela nem pelos outros em nossa cultura, ela é forçada a buscar identidade e autoestima nos únicos canais abertos a ela: busca por satisfação sexual, maternidade e posse de coisas materiais. E, acorrentada a essas procuras, ela acaba atrofiada em um nível inferior de vida, impedida de satisfazer suas necessidades humanas mais elevadas.

Betty Friedan

Um resgate das contribuições da obra de Friedan para o entendimento das crises femininas individuais serve bem para pensarmos sobre os efeitos destrutivos de uma militância mais ocupada em queimar livros do que em promover um debate verdadeiramente profundo e preparado para as contradições que o feminismo oferece. É um livro importante, que ajuda na compreensão do nosso sofrimento individual. Sem entendê-lo, é quase impossível agir contra as estruturas sociais que privam as mulheres de uma vida plenamente realizada. É um livro que também valoriza o sentido da dor e do desconforto.

Citando Mallow, Friedan me pacifica com meu sofrimento:

“O crescimento não tem apenas recompensas e prazeres, mas também muitas dores intrínsecas, e sempre terá. Cada passo à frente é um passo para o desconhecido e é entendido como possivelmente perigoso. Também com frequência significa desistir de algo familiar, bom e satisfatório. Com frequência significa uma despedida e uma separação com consequente nostalgia, solidão e luto. Também significa, muitas vezes, desistir de uma vida mais simples, mais fácil e menos esforçada em troca de uma vida mais exigente e mais difícil. O crescimento ocorre a despeito dessas perdas e, portanto, requer coragem, força do indivíduo, bem como proteção, permissão e incentivo do ambiente, principalmente para a criança”. 

Serviço
A mística feminina
Betty Friedan 
Rosa dos Tempos, RJ
559 páginas
R$ 69,90

Juliana Diniz

Editora executiva do Bemdito. É professora do curso de Direito da UFC e Doutora em Direito pela USP, além de escritora. Publicou, entre outras obras, o romance Memória dos Ossos.